Pular para o conteúdo principal

Os Olhos Amarelos dos Crocodilos (2014) | Guerra fria entre irmãs

A adaptação cinematográfica do livro de Katherine Panal dirigida pela belga Cécile Telerman foi um dos 16 filmes em cartaz no Festival Varilux de Cinema Francês de 2015. Os Olhos Amarelos dos Crocodilos traz a estória de duas irmãs em uma guerra silenciosa entre si.

A mãe das garotas sabia qual das duas faria sucesso. Iris (Emmanuelle Béart), a mais bela e inteligente das filhas, teria um futuro brilhante, enquanto Jo (Julie Depardieu), com sua aparência comum e cérebro razoável, jamais chegaria aos pés da irmã. Já adulta, Iris agora é casada com um rico advogado que tem dinheiro o suficiente para comprar-lhe o que quiser. Jo, porém, divorciou-se recentemente e passa por problemas financeiros por ser apenas uma pesquisadora da Idade Média.

Em mais um dos seus caprichos em busca de atenção, Iris declara que está escrevendo um livro. O enredo? Bem, é um romance habituado no século 12. Para sair dessa situação, convence a irmã de escrever o tal livro em troca do dinheiro arrecadado nas vendas. Mas, o que parecia ser uma solução simples, transformou-se em um drama familiar quando o livro virou um best-seller e Jo finalmente cansou de ser apenas uma sombra da irmã.

Com a mesma guerra fria entre irmãs presente no Blue Jasmine de Woody Allen, o filme estrelado pela filha do ator Gérard Depardieu, Julie Depardieu, e por Emmanuelle Béart, francesa que participou do blockbuster americano Missão Impossível, traz, além das duas protagonistas, um grande número de personagens secundários cujas estórias são pouco desenvolvidas. O padrasto das garotas e sua amante, por exemplo, provavelmente compõem um núcleo relevante no livro de Panal, mas a roteirista Charlotte De Champfleury e a própria diretora do longa focaram mais no relacionamento entre Iris e Jo do que no resto dos personagens, tornando as cenas dos outros um tanto quanto dispensáveis para o desenrolar da narrativa. Até mesmo o passado das irmãs possui lacunas gigantescas, como a morte do pai delas.


A passagem do tempo também é bastante confusa. Há lindos flashbacks de Jo com seu pai numa noite estrelada, além de outros da infância das irmãs. Porém, quando o presente é novamente o centro, parece passar ligeiro demais. Em um momento, há enfeites natalinos pendurados, no outro, nenhum sinal de neve. Dois anos se passam, mas os espectadores só percebem porque uma das personagens anuncia. Ao contrário, não achariam que 730 dias foram retratados em menos de dez minutos.



Os Olhos Amarelos dos Crocodilos é um dos primeiros projetos de Telerman como diretora. Conta com boas atuações e uma estória envolvente. Cabe ao tempo dizer se esse foi sua Iris – seu filme de maior sucesso – ou sua Jo – mais um longa entre tantos outros.



Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

O Massacre da Serra Elétrica (1974): Salve-se quem puder

Não é pra todo mundo. Fato. Mas para qualquer fã de filmes de terror, O Massacre da Serra Elétrica original é quase como um obra de arte irretocável, sendo como um dos mais impactantes filmes de horror já feito na história da linguagem. Lançado em 1974 por Tobe Hooper ainda em início de carreira, a obra não apenas marcou a época como também serviu de ponto de partida para uma nova fase do horror no cinema, decolando em níveis além daqueles imaginados por Alfred Hitchcock e Roman Polanski . A história aqui, baseada na vida do psicopata real Ed Gein , o assassino cuja carnificina já havia ganhado as telas do cinema através do personagem de Norman Bates em Psicose , desenvolve um grupo perseguido incansavelmente por Leatherface, antagonista cuja máscara é um dos objetos mais reconhecíveis da história do cinema: você pode até não ter visto o filme, mas sabe que ele usa a pele de suas vítimas para esconder o seu rosto. O Massacre da Serra Elétrica:  Salve-se quem puder ...

Victoria e Abdul (2017) | Acerto em abordar a intolerância

Judi Dench é uma das damas britânicas de maior influência no cinema euro-estadunidense. Dona uma extensa e premiada filmografia, que inclui um Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante em 1999 por “Shakespeare Apaixonado” , a atriz tem como uma de suas mais conhecidas interpretações a do longa-metragem “Mrs Brown” (1997), onde encarna a histórica Rainha Victoria. Consagrada então como uma favorita dos britânicos para interpretar figuras de poder - feito também atingido por Helen Mirren com “A Rainha” (2006) -, a atriz volta a interpretar a monarca em “Victoria & Abdul - O Confidente da Rainha” (2017), filme produzido pela BBC que reafirma sua frutífera parceria com o cineasta Stephen Frears , explorada anteriormente no comovente drama biográfico “Philomena” (2013). Este gênero, inclusive, parece ser um dos que Frears é melhor sucedido; além do filme de 2013, ele também está por trás do já aqui citado “A Rainha” e, mais recentemente, da comédia dramática “Florence - Quem é Essa Mu...

Homem-Aranha: De Volta ao Lar (2017) | Humor jovem e frescor adolescente

Spiderman: Homecoming (EUA) Com outro  reboot lançado pela Sony Pictures, neste caso a encargo de Jon Watts ( "A Viatura" , 2015) o super-herói "cabeça de teia" volta aos cinemas. Desta vez, ele retorna carregando um grande diferencial: a Marvel, famosa gigante dos quadrinhos que é responsável pela criação do personagem e teve que vendê-lo anos atrás para a própria Sony, detém novamente do controle criativo sob ele. E foi a partir desta parceria entre os dois estúdios que "Homem-Aranha: De Volta ao Lar"  (2017) nasceu, trazendo referências à situação já em seu próprio título, e assim introduzindo o tão popular Homem-Aranha no Universo Cinematográfico Marvel (Ou "MCU", para os íntimos). E a proposta, como esperado por alguns fãs do gênero, surpreende de forma bastante positiva.  Diferente dos outros dois "filmes de origem" já lançados sobre o personagem, que foi previamente interpretado por Tobey Maguire (entre 2002 e 2007) ...