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Alice Através do Espelho (2016) | Fantasia bela e pouco criativa

Alice Through the Looking Glass (EUA)
Parece que, para a Disney, apesar das opiniões de muitos críticos e de Tim Burton, é hora de voltar para o "País das Maravilhas" (ou "Mundo Subterrâneo"), como o próprio estúdio sugere em seu novo live action. "Alice Através do Espelho" (2016) chega aos cinemas seis anos após seu predecessor, e desta vez caído nas mãos do diretor James Bobin (responsável por "Os Muppets", de 2011, e sua sequência, lançada em 2014). O que esperar de um filme que, de acordo com o próprio Burton, diretor do longa-metragem de 2010 (e que retorna apenas como produtor), não havia necessidade de ser realizado?

Trazendo todo o elenco original, nossa viagem de volta ao fantástico mundo de CGI toma início quando Alice Kingsleigh (Mia Wasikowska), após anos velejando no navio de seu pai, "The Wonder", retorna à aristocrática Londres. Ainda perseguida pelos costumes conservadores e machistas da época, a protagonista encontra-se em conflito quando seu ex-pretendente, Hamish Ascot (Leo Bill), tenta tomar-lhe a embarcação em um contrato de negócios. Indecisa sobre o que deve fazer, Alice acaba sendo guiada por Absolem (com a voz do falecido Alan Rickman) através de um espelho mágico, onde reencontra seus amigos do "Mundo Subterrâneo" e descobre que o querido Chapeleiro Maluco (Johnny Depp) está depressivo e perdendo sua "muiteza". A única maneira de consertar a situação é viajando pelo tempo, por meio de um aparelho denominado chronosfera, para desfazer os ocorridos que o trouxeram a esse estado.

O roteiro da aventura, no entanto, parece bastante reciclado. O texto de Linda Wolvertoon, que também escreveu o longa anterior e "Malévola" (2014), parece ter bebido da mesma fonte de diversos outros filmes que abordam a viagem no tempo, além de produções do próprio estúdio. Não é difícil compará-lo, por exemplo, a "O Fantástico Mundo de Oz", esquecido filme de 1985, que também apresenta cenas em um manicômio (sim, apesar de ser uma ideia ousada, não é exatamente nova) e criaturas mecânicas. Até as frases de efeito, apesar de eficientes, são clichês. A trama proposta por Lewis Carroll em seu livro, como já esperado, foi reduzida a pequenas aparições de personagens (tais como Humpty Dumpty) e algumas referências. Linda preocupou-se em priorizar a construção de histórias de origem, o que tenta trazer sentido ao comportamento dos personagens já conhecidos que, ironicamente, fazem sucesso por sua amigável insanidade. Nada disto era verdadeiramente necessário.

Sobre as atuações, não há muito o que se dizer; os personagens permanecem praticamente os mesmos, com Johnny Depp, Anne Hathaway e Helena Bonham Carter demonstrando um desempenho bastante similar (e não necessariamente ruim) aos de 2010. A única evolução parece ter sido em Alice, cuja confiança e maturidade exploram bem mais de Mia Wasikowska, levando a garota a entregar-se novamente, e de forma efetiva, ao papel que trouxe-lhe os holofotes. Outras adições relevantes ao elenco incluem Sacha Baron Cohen, que interpreta a personificação do Tempo (um ser metade homem, metade máquina) de forma até carismática, atingindo destaque, e Ed Speelers como o advogado James Harcourt, um personagem que é deveras mal aproveitado em suas aparições.

Quanto aos aspectos visuais, "Alice" atinge seu ápice: Bobin e a equipe de efeitos visuais trazem cor ao sombrio mundo concebido pelo time de Tim Burton, respeitando ainda assim o estilo já permeado dentro daquele universo. Encontramos o verdadeiro "País das Maravilhas", com sua explosão psicodélica e às vezes vitoriana, que remete muito mais ao aspecto kid-friendly da animação de 1951. O design de produção é louvável e respeita as intenções de cada ambiente, onde destaco o castelo do Tempo e seu goticismo arquitetônico. O figurino de Colleen Atwood é ainda mais criativo do que o da primeira adaptação, o que talvez a leve a conquistar novamente o Oscar por esta sequência.

A sensação deixada por "Alice Através do Espelho" é que o filme não seguiu toda a sua potencialidade, resumindo-se a uma produção sintética e que não se arrisca em inovar e fazer o público pensar muito. Apesar disto, os temas já recorrentes nas produções Disney, como família e amizade, encontram-se fortemente presentes no longa-metragem, carregando uma "moral" e um sentimento agradável que o classifica como uma boa opção de entretenimento familiar, fazendo-o superar seu anterior. Bastante aproveitável, ainda que cheio de erros, a promessa em sua conclusão é agradar ao público e provavelmente encerrar uma franquia que tanto trouxe lucro, mas pouco destacou-se em termos narrativos.

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