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Animal Político (2017) | Verdade superficial

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Animal Político : Poster
Animal Político (Brasil)
O espaço mundial para o cinema experimental/contemplativo foi bastante reduzido por diretrizes óbvias de mercado. Mas a coerção da lógica narrativa exata não o tangeu por completo, deixando seu espaço reservado em festivais de cinema. 'Brasil S/A' de Marcelo Pedroso e até mesmo o cearense 'O Último Trago' do coletivo Alumbramento, vêm atraindo foco em suas carreiras. 'Animal Político', filme do pernambucano Tião entra nesse grupo. E, como é comum nessa parcela do cinema, ‘Animal’ é um filme de distinção imensa a qualquer outro experimento narrativo. Tendo como protagonista uma vaca que busca o sentido da vida, Tião faz questão de compreender a improbabilidade do filme e justificar isso com uma genial necessidade de distanciamento. 

O filósofo se incomoda com o espaço que ocupa e isso é o ponto de partida para questionar as normalidades. Colocando em risco a "superioridade" do humano, Tião se pergunta por quê nós somos os mais racionais. E esse olhar para além do que somos capazes de definir é o norte de "Animal Político", um devaneio cômico e instigante sobre o nosso espaço e sobre o quê nossos sistemas estão se apoiando. 

Mas o ponto mais inebriante da obra é seu tom construído em uma medida que oscila entre o humor e o drama constantemente; e nunca é um dos dois separadamente. A primeira conexão ao filme, por exemplo, é o ineditismo de uma vaca ocupar todos os espaços que surgem. Praia, shopping, cabeleireiro, etc – comuns ao que vemos e pertencemos no dia-a-dia. Porém é perceptível que essa estratégia não seria suficiente; quando a “ferramenta” começa a cansar, Tião explora espaços cada vez mais oníricos, lampejos da própria reflexão. O espaço se lapida inversamente; desprender-se do que é “real” é o palpite do filme para observar questões tão pertinentes. Não por outro motivo, Kubrick está presente quando a idealização cenográfica perde os sentidos lógicos da realidade. Até mesmo a imagem da vaca que tanto nos acostumou é redefinida – e até mesmo esquecida em um ambicioso desvio narrativo.

O principal anseio da trama de ritmo andarilho é repensar as regras em seu sentido esquemático. Por isso reforça sua facada na formalização dos pensamentos culturais e capitalistas e o que vier no pacote é bem-vindo, como uma rápida e curiosa passagem pelo patriarcalismo e supremacia historicamente branca da “razão” – Tião não dispensa nem mesmo falar da imagem, mesmo que, como defende ser possível, superficialmente. 

É bom lembrar que ‘Animal Político’ é um filme de perguntas, e somente a elas diz respeito. Embora se preocupe com as possíveis respostas, não entrega nem mesmo quando sua/seu protagonista diz tê-las encontrado. Mas sabemos que, como denunciou antes, é uma compreensão ilusória de todas as coisas. Uma "brincadeira" que poderia ser hermética e se vestir de uma "profundidade" clássica de quem discute essas questões, mas a abordagem consegue ser muito lúcida e não-didática. Uma pérola moderna de um cinema brasileiro pensante (ou político) que está disposto a conduzir rotas ilimitadas da verdade. Verdade, essa, que pode também não valer nada.

Crítica: Animal Político (2017)

Verdade superficial


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