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Bingo: O Rei das Manhãs (2017) | Daniel Rezende estreia o cargo de direção com sabedoria invejável


Daniel Rezende, montador de grandes filmes nacionais, como Cidade de Deus e Tropa de Elite 1 e 2, dirige o seu primeiro filme, Bingo: O Rei das Manhãs, com muita perspicácia e com características que flertam com a fantasia. A trama, inspirada na vida de Arlindo Barreto, apesar de baseada em fatos, se distancia de movimentos, como o Neorrealismo Italiano, cujo foco era apresentar e desenvolver histórias, personagens e situações reais, já que, mesmo com a vasta documentação provando a vida de Arlindo, o que fica é a sensação de que tudo que está sendo visto é irreal. 

Vladimir Brichta interpreta Arlindo, o palhaço Bozo, que apresentou o famoso programa infantil nas manhãs do SBT na década de 1980. No texto do filme, o diretor alterou os nomes de algumas emissoras e a marca do palhaço por questões judiciais. O nome de Arlindo, no entanto, já marca o primeiro ponto de fantasia, visto que é substituído por Augusto, assim como Bozo muda para Bingo. As alterações, em vista disso, garantem uma liberdade para o diretor que, sendo muito criativo em seu roteiro, nos mostra uma trama orgânica e natural.

O clichê, de certo modo, acaba surgindo com o desenvolver dos atos. Em certos momentos, Rezende até brinca de ser Martin Scorsese, ainda em início de carreira, quando nos apresentou Touro Indomável e O Rei da Comédia. As obras do diretor fizeram escola, como pode ser apontado em Boogie Nights – Prazer sem Limites de Paul Thomas Anderson e, no Brasil, com Bingo, logo que os atos se concentram em três estágios: ascensão, sucesso e queda.

O roteiro, por outro lado, se diferencia por causa da cultura popular dos anos de 1980 no Brasil. A loucura do politicamente incorreto, a picardia da chanchada e o descontrole da televisão brasileira criaram grandes histórias, principalmente quando comparada com as últimas gerações. As homenagens, citações e situações que o personagem se encontra divertem o público que viveu e se sente em casa, assim como aqueles que têm curiosidade de saber como era o período televisivo de anos atrás.

Já a montagem feita por Márcio Hashimoto, o mesmo de O Filme da Minha Vida, garante uma viagem por essa história. Se na montagem de Rezende o realismo prevalece, aqui, assim como no filme de Selton Mello, a fantasia se destaca. Todo o movimento que a câmera faz recebe apoio de Márcio, que, com muita alegoria, acaba tornando o filme carnavalesco. Este elogio, por sinal, não seria o mesmo sem o apoio da trilha sonora, que traz um drama tocante e áspero nos momentos melancólicos, assim como outras sequências agitadas com as músicas de Metrô e Titãs.

+ Crítica: O Filme da Minha Vida (2017) | Contemplando o passado

O design de produção, seguindo a linha, aposta no neon, azul e em outras cores fortes que combinam com a década. Com o passar dos atos, no entanto, a iluminação exibe tons obscuros, o que garante a fotografia de Lula Carvalho alguns planos arrebatadores, como aquele que Bingo anda por um corredor e as luzes se apagam atrás dele. Destes takes que ficam na memória, vale lembrar dos longos planos sequências que mostram os talentos das câmeras, da montagem, da fotografia e dos astros.

Os atores, por sinal, acabam sendo mais um acerto. Vladimir, por exemplo, é um camaleão. O ator encontrou o personagem de que será lembrado, assim como aconteceu com Wagner Moura e seu Capitão Nascimento. O desenvolvimento de Augusto até se tornar o Bingo é um estudo profundo de personagem, que até nos segundos finais de filme tem algo a mostrar. O mesmo pode ser dito pelo elenco de apoio, que apresenta carisma, tensão e carinho, como as personagens das sempre talentosas Leandra Leal e Ana Lúcia Torres.

A personagem de Ana Lúcia, como outro trunfo do filme, completa a viagem psicodélica da obra. Enquanto que em alguns momentos só acompanhamos o seu lado profissional, o filme ainda encontra espaço para falar do dilema entre ser um artista ou mãe/pai. Os temas tratados, além de drogas, vícios, poder e disputa, se esvaem quando Ana e Vladimir contracenam juntos. O último take, ainda que sejam os seus personagens, ao invés dos astros, emociona e deixa um olhar muito sincero do que queremos ser. Todos os dias estamos buscando reconhecimento, o que nos faz entrar em qualquer vício que afasta da família, como no trabalho ou no prazer. Somos protagonistas e astros de nossa própria história, mesmo que com bastante fantasia para dar uma temperada. E Daniel Rezende nos mostrou isso com um palhaço. Gênio. 

Crítica:  Bingo: O Rei das Manhãs (2017)

Daniel Rezende estreia o cargo de direção com sabedoria invejável

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