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First They Killed My Father (2017) | O caos aos olhos de uma criança

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A poesia em desejos, esperanças e ingenuidades impressa no ponto de vista de uma criança no meio do caos de uma guerra. Toda essa subjetividade transborda através do trabalho cheio de sensibilidade de todos os envolvidos com a obra. A direção de Angelina Jolie é bastante segura e sensitiva, digna de uma mulher de um talento artístico impecável que já viajou para diversos locais do mundo e presenciou vários tipos de injustiças sociais. De forma geral, ora nos sentimos na pele da protagonista, uma criança que enfrenta em seu país um regime comunista tendo que fazer tudo para sobreviver, ora assistimos suas aflições torturantes. 

Crítica: First They Killed My Father (2017)

O caos aos olhos de uma criança


O simbolismo nos sonhos da criança é constante em todo o filme, amparado por uma direção de arte fabulosa, que se expõe de diversas formas e em ocasiões diferentes, dissertando os medos e desejos da criança. Essa subjetividade vai de pessoas fantasiadas de monstros que expulsam todos da cidade, até banquetes dourados em seus devaneios. Todavia, essa poesia não se restringe apenas aos sonhos da garota, ela está presente em diversos pontos do filme, às vezes em detalhes paisagísticos ou de situações simplistas, às vezes como mecanismo de expressar a dor dos personagens frente às diversas perdas.

O filme é sempre do ponto de vista da protagonista, por vezes chegamos a ver o que ela vê, quando não, estamos junto a ela. É interessante observar o que chama a atenção de uma criança no começo do filme e essa mesma perspectiva no final, como ocorre essa mudança de ponto de vista sobre o mundo ao seu redor. Tudo muda bruscamente, tudo de cabeça pra baixo. Quando alguém se aproxima, não sabemos quando pode ser uma ajuda, ou inimigo, nem sempre se torna claro o que os adultos conversam. 

O título do filme já traz ao espectador uma psicose: “Quando e como vai acontecer?” Além disso, carrega a ideia de que “isso é só o começo”. Em cada momento de tensão, todos os nossos sentidos se voltam para o pai da garota. Apegamos-nos cada vez mais a ela, presenciamos as dores uma por uma e o sentimento de “o pior ainda vai chegar” bate a porta em muitos momentos.

Para fins acadêmicos de diversas áreas sociais, a dureza do regime comunista é mostrada de forma crua, obviamente, restrita aos olhos da criança. Porém, é possível contemplar certos elementos históricos, como os tratamentos com os monges budistas, os treinamentos e a alienação imposta na época. O filme, que apesar de ser uma ficção, é baseado em fatos reais e se agarra a uma ambientação documental, evidenciada desde o início da obra. 

A estética fílmica é trabalhada com desfoques pontuais em momentos cruciais que limitam os nossos sentidos aos da garota, causando cada vez mais uma imersão profunda. As cores artificiais são limitadas aos sonhos, para não quebrar a estrutura fictícia que se aproxima estreitamente do documental. O amarelo ouro para os banquetes e lembranças felizes, de vestidos e danças, o azul arroxeado para as preocupações e lembranças das perdas e das dores. Cada detalhe tem uma importância crucial, cada um deles faz parte de uma cereja do bolo. 

Um drama sensacional, principalmente para os amantes de documentários, filmes históricos, ou de poesia subjetiva cinematográfica. Em um final de semana tranqüilo e de muita confusão sobre o que escolher para assistir no Netflix, se você se interessou pelo que leu, a escolha deste filme é um tiro certeiro. 



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