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O Rei do Show (2017) | O legado satisfatório de La La Land

Desde a abertura, O Rei do Show não hesita em nem um segundo em mostrar seu espírito. As cores vibrantes, os recursos sonoros, a música e, claro, a visão imediata de Hugh Jackman no papel principal, fazem dos primeiros minutos algo já memorável. Dessa forma, é difícil identificar o diretor Michael Gracey como quase que um novato na direção, mas fica ainda mais fácil perceber seu conforto e afinidade com a arte visual.

O Rei do Show é livremente baseado na história de P. T. Barnum, empresário de peso na história do entretenimento americano, reconhecido por ser o criador do circo que conhecemos hoje. O longa se inicia, então, com uma introdução decente e breve, o que dispensa o uso de flashbacks e torna a história mais linear, sem fugir da temática do teatro. Conhecemos logo no começo a história secundária da trama - um pouco genérica -, entre Phineas Barnum (Jackman) e Charity (Michelle Williams). Mas o verdadeiro ouro do longa, que infelizmente não foi tão bem explorado quanto poderia, começa quando Barnum resolve criar um show com personagens exóticos rejeitados pela sociedade em geral, as chamadas "aberrações".

O homem mais gordo do mundo, a mulher barbada (Keala Settle) - um das grandes revelações do longa -, o homem cachorro e diversas outras personalidades, são apresentadas de uma vez, e é então que o verdadeiro show começa. As músicas, as coreografias, a magia são dignas de, bom, um verdadeiro circo, no melhor sentido da palavra. O show de Barnum, entretanto, divide a opinião pública, entre os que acreditam que essas "fraudes" devem "voltar para suas casas" e os que estão animados pelo entretenimento criado. É evidente perceber o conforto e a facilidade de Jackman, já acostumado com o estilo, visto que recebeu indicação para melhor ator em Os Miseráveis (2012) e com diversos outros papéis musicais no currículo. Desta forma, o ator facilmente se prova uma das grandes riquezas do longa.

Quem surpreende também é o ator Zac Efron, que protagoniza ótimas cenas musicais, e, ao lado de Zendaya, constrói um casal de química completamente inesperada e satisfatória, o que classifica os dois em atores de, apesar de ainda terem um bom caminho a percorrer, estarem pelo menos percorrendo no caminho certo. Ainda mais Efron, que, mesmo com grande quantidade de filmes no currículo, parecia precisar desse empurrão para conquistar a chance de mudar das velhas comédias românticas. Já Zendaya ainda é novata em longa metragens, mas tem aos poucos criado sua carreira, sem se preocupar com a pressa.

Entretanto, a tentativa de Gracey de trabalhar várias "lições de moral", perde-se por acabar não focando em nenhuma, muito menos na principal, que tinha grandes potencialidade de se tornar até contemporânea. O esforço é reconhecido, mas o resultado se perde entre os atos e acaba sendo ignorado. Por mais que seja difícil admitir, há um sentimento de vazio e de incompleto assim que o filme acaba e nem a excelência das músicas - muito bem encaixadas por Benj Pasek e Justin Paul, compositores do próprio La La Land -, são capazes de distrair o público dessa falha, o que acaba por diminuir a originalidade e o potencial do roteiro.


A influência de La la land é indiscutível, bem como de diversos outros clássicos, como Moulin Rouge, Hairspray e até de veteranos como Melodia da Broadway de 1940. É quase impossível dizer que O Rei do Show estaria no mínimo no mundo das ideias se o já clássico musical de Damien Chazelle não tivesse existido, longa que abriu de verdade as portas para os musicais do século XXI, sem dispensar as raízes dos clássicos nem desprezar as influências modernas, o que talvez desse orgulho ao inesquecível Gene Kelly (grande homem por trás da direção, coreografia e atuação de Cantando na Chuva) e ao já eternizado Fred Aistaire, dois grandes nomes dos musicais do século XX.

No musical de Gracey, o sapateado ficou de lado, mas as coreografias nem de longe decepcionaram, recurso de peso para o sucesso do longa. A dança de Jackman e Williams não tem a clássica "batição de pés", mas encanta com uma coreografia encantadora e emocionante, o que ilustra uma das músicas da trilha sonora (quase) impecável. Dessa forma, não é surpresa que o filme já tenha marcado presença nas indicações do Globo de Ouro, que, mesmo tímidas, prometem pelo menos uma estatueta. E não podemos esquecer que o Oscar está a um passo e, mesmo com vários filmes excelentes na disputa, acredito que podemos esperar pelo menos algumas indicações, ainda mais com Hugh Jackman, que parece ter mostrado que, por melhor que seja em suas interpretações do bom e velho Volverine, brilha mais que nunca em musicais.

+ Logan | Os Brutos também amam

Crítica: O Rei do Show (2017)

O legado satisfatório de La La Land


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