Pular para o conteúdo principal

Oscar 2018: "Koe no Katachi" e o silêncio do desprezo

Resultado de imagem para Koe no Katachi Naoko Yamada
O prêmio de melhor animação na Academia é relativamente novo comparado com os de Melhor Filme e Melhor Roteiro. Com sua primeira premiação em 2002, com uma rápida pesquisa se nota que em dez anos de indicações, somente sete foram de países não norte americanos , isso sem contar os que detinham coproduções. E dessas indicações é contato o único vencedor “estrangeiro” do prêmio: A Viagem de Chihiro (2001) obra-prima do cinema e do cinema animado; após essa grande vitória temos um vácuo de cinco anos de não indicações e quinze anos sem premiações. E isso nos leva a comentar sobre o filme esquecido do ano que não levou nem uma indicação: Koe no Katachi, 2017 (A Silent Voice).

Oscar 2018: "Koe no Katachi" e o silêncio do desprezo

O que leva uma animação estrangeira ao Oscar? Por que "Koe no Katachi" está de fora?


Koe no Katachi, filme de animação japonesa, conta a história de Shouya e seus amigos, que tem seus mundos de ensino fundamental mudados com a chegada de Shouko Nishimiya, aluna muda, em sua classe. Shouya e os demais não conseguem aceitá-la, começando assim práticas de bullyings cada vez mais sérias com a garota, ocasionando na saída da mesma da escola. O filme, então, tem seu foco no futuro desses jovens que tentam lidar com suas más escolhas no passado, a capacidade de empatia em relação ao outro e, principalmente, a autoaceitação e auto perdão.

Com liberdade poética e técnica, que não se via desde Kaze Tachinu, 2013 (Vidas ao Vento), a obra é visualmente sensível e esteticamente incrível. Se assemelhando a beleza de seu conterrâneo Kimi no Nawa, 2016 (Your Name), que não pôde ser indicado ao Oscar por sua estreia ter sido ano retrasado.  Bom, Silent Voice tem todos os atributos necessários para a indicação se seguirmos o quesito “Oscar Winning”.

A academia aprecia dramas de pessoas com necessidades especiais ou doenças (Meu Pé Esquerdo, 1989O Piano, 1993; Amour, 2012; Clube de Compras de Dallas, 2013) e grande técnica formal cinematográfica, que no caso específico dos prêmios de animação é o fator decisivo da escolha de quem vai levar a estatueta. Com visualidades de detalhes e planos subjetivos que criam resposta imediata com quem assiste, Koe no Katachi aborda de maneira delicada, porém subitamente emocionante, temas como depressão, bullying, mudez/surdez e o complexo de culpa. Jumpcuts na narrativa causam desnorteamento em quem se vê confrontado com a inescapável realidade de quem sofre preconceito, fazendo paralelo com a prisão que é a incapacidade de se reconectar com um passado cheio de falhas.

Se deparando com esses aspectos, a não indicação de A Silent Voice levanta discussões profundas sobre o processo de nomeações e premiações da Academia, pois se a técnica da animação é um dos elementos decisivos para que um filme cresça aos olhos como forte concorrente (lembrando que filmes co-produzidos e produzidos por norte-americanos ganharam 15 das 16 nomeações em todos os 18 anos que o prêmio existe), logo é correto afirmar que a Academia está numa contínua estrada de auto premiações e que esse ato ratifica que a Academy of Motion Picture Arts menospreza produções animadas que não advenham de um de seus estúdios.

Analisando os indicados desse ano há dois filmes norte-americanos (Com Amor Van Goh, Viva: A Vida é uma Festa, Touro Ferdinando, esse último dirigido por um brasileiro), um que é uma coprodução de vários (The Breadwinner) e O Poderoso Chefinho que possuí 42% no Rotten Tomatoes, várias críticas negativas e nenhum dos temas admirados pela academia, a não ser pela impecabilidade técnica.  Koe no Katachi não é do Studio Ghibli, nem foi dirigido pelo mestre Miazaki. Em vez foi dirigido por Naoko Yamada; uma mulher animadora japonesa que fez um filme que, com toda sua especificidade, se ressalta no ano de 2017 mas foi ignorado nesse Oscar de 2018.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

O Massacre da Serra Elétrica (1974): Salve-se quem puder

Não é pra todo mundo. Fato. Mas para qualquer fã de filmes de terror, O Massacre da Serra Elétrica original é quase como um obra de arte irretocável, sendo como um dos mais impactantes filmes de horror já feito na história da linguagem. Lançado em 1974 por Tobe Hooper ainda em início de carreira, a obra não apenas marcou a época como também serviu de ponto de partida para uma nova fase do horror no cinema, decolando em níveis além daqueles imaginados por Alfred Hitchcock e Roman Polanski . A história aqui, baseada na vida do psicopata real Ed Gein , o assassino cuja carnificina já havia ganhado as telas do cinema através do personagem de Norman Bates em Psicose , desenvolve um grupo perseguido incansavelmente por Leatherface, antagonista cuja máscara é um dos objetos mais reconhecíveis da história do cinema: você pode até não ter visto o filme, mas sabe que ele usa a pele de suas vítimas para esconder o seu rosto. O Massacre da Serra Elétrica:  Salve-se quem puder ...

Victoria e Abdul (2017) | Acerto em abordar a intolerância

Judi Dench é uma das damas britânicas de maior influência no cinema euro-estadunidense. Dona uma extensa e premiada filmografia, que inclui um Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante em 1999 por “Shakespeare Apaixonado” , a atriz tem como uma de suas mais conhecidas interpretações a do longa-metragem “Mrs Brown” (1997), onde encarna a histórica Rainha Victoria. Consagrada então como uma favorita dos britânicos para interpretar figuras de poder - feito também atingido por Helen Mirren com “A Rainha” (2006) -, a atriz volta a interpretar a monarca em “Victoria & Abdul - O Confidente da Rainha” (2017), filme produzido pela BBC que reafirma sua frutífera parceria com o cineasta Stephen Frears , explorada anteriormente no comovente drama biográfico “Philomena” (2013). Este gênero, inclusive, parece ser um dos que Frears é melhor sucedido; além do filme de 2013, ele também está por trás do já aqui citado “A Rainha” e, mais recentemente, da comédia dramática “Florence - Quem é Essa Mu...

Homem-Aranha: De Volta ao Lar (2017) | Humor jovem e frescor adolescente

Spiderman: Homecoming (EUA) Com outro  reboot lançado pela Sony Pictures, neste caso a encargo de Jon Watts ( "A Viatura" , 2015) o super-herói "cabeça de teia" volta aos cinemas. Desta vez, ele retorna carregando um grande diferencial: a Marvel, famosa gigante dos quadrinhos que é responsável pela criação do personagem e teve que vendê-lo anos atrás para a própria Sony, detém novamente do controle criativo sob ele. E foi a partir desta parceria entre os dois estúdios que "Homem-Aranha: De Volta ao Lar"  (2017) nasceu, trazendo referências à situação já em seu próprio título, e assim introduzindo o tão popular Homem-Aranha no Universo Cinematográfico Marvel (Ou "MCU", para os íntimos). E a proposta, como esperado por alguns fãs do gênero, surpreende de forma bastante positiva.  Diferente dos outros dois "filmes de origem" já lançados sobre o personagem, que foi previamente interpretado por Tobey Maguire (entre 2002 e 2007) ...