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Rafiki: Drama lésbico proibido no Quênia que é menos “Romeu e Julieta” e mais sobre identidade

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- Eu quero viajar pelo mundo, ir para um canto onde ninguém viu uma africana
- Mas você não é uma africana convencional

Há uma sensação de identidade naturalizada em Rafiki que parece sustentá-lo por cima de uma construção dramática das mais óbvias no subgênero que se encaixa. Essa narrativa de ser um “Filme LGBT Africano” pouco é recorrente, e a visão progressista ancorada por grande parte do ocidente parece certificar a farsa de um mundo globalizado que ultrapassa fronteiras no mesmo ritmo. É a ilusão que as comunicações instantâneas, mas secretamente selecionadas, nos deram nesse tão esperto Século XXI. Dentre os quase 200 países, em 70 deles é crime social e institucional ser gay - e aí cruelmente se resume um vasto espaço de fluxo de identidade sexual, onde apenas é possível supor a gravidade de ser transsexual num país que mata a pessoa que “apenas” quer beijar uma boca do mesmo sexo.

Rafiki: Drama lésbico proibido no Quênia que é menos “Romeu e Julieta” e mais sobre identidade

Filme africano estreou na Mostra Um Certo Olhar do Festival de Cannes em 2018


Quênia, país de origem do drama lésbico Rafiki, criminalizou a homossexualidade em 1897 quando ainda era uma colônia e o ódio segue registrado como lei nesse famoso século das desconstruções. Na crítica de cinema pelo mundo, há quem inflame contra obras clássicas que ainda retratem o personagem LGBT reprimido, mas neste cenário, muito mais do que em qualquer outro americano ou europeu, o Ser já é um conflito imediato - não à toa a obra foi proibida no próprio país por “incentivar o lesbianismo”. 

Por essa ótica, Rafiki se constrói como um microconto que muito possivelmente já assistimos em telas de outros países. A repressão sexual convertida num Romeu e Julieta moderno sobre um casal que se ama sem ter a permissão para isto. É comum, ainda mais que sejamos capazes de prever a ordem dos fatos: a atração, aceitação interna, liberdade, segredo, descoberta, marginalização e o final pontualmente triste. Se essa é a história mais comum de afirmação LGBT nas sociedades ditas progressistas, como deve ser ainda mais violenta em um desses 70 países. 

Por isso que a resistência da obra de Wanuri Kahiu ainda ecoa pela identidade. Os cenários recheados e as roupas expressivas, artes coordenadas por Wambui Thimba e Arya Lalloo, são fotografados por Christopher Wessels com uma vivacidade que exalta a experiência da comunidade, da permanência do convívio, divergindo especificamente uma sensação de liberdade visual de um silencioso desespero pela prisão de um casal impossível. Kena (Samantha Mugatsia) e Ziki (Sheila Munyiva), nos despertar do desejo, trocam conversas sobre o cárcere e suas vontades - cena de onde veio a frase que abre este texto. 

O contexto político frágil em sua dimensão narrativa faz com que a construção de Samantha e Sheila para suas personagens sempre retornem a lugares-comuns da proibição, e quase funcionaria como metáfora se não fosse uma relação tão direta e pouco explorada. Mas a química que sustenta a emoção é evocada de suas diferenças, sejam visuais, gestuais ou comportamentais, e a experiência de acompanhar suas aproximações faz de Rafiki um filme amoroso pelo que não chega a dizer. 

Diante dos conflitos conservadores sobre família, traição e poder, a pequena revolução que ambas afirmam em silêncio se prova suficiente a cada nova investida de identidade e liberdade que o roteiro de Wanuri oferece. Reconhece, principalmente, que seus atos e pontos de viradas não são ferramentas para fazer desta uma nova história sobre duas pessoas que se apaixonam. Mas com todo seu arsenal visual e emotivo, Rafiki sabe exatamente que, apesar de não parecer novo, é uma história sobre duas “novas” mulheres no campo ideológico do que pode ser o cinema africano para o resto do mundo.  

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