
Foi
em 1938, ano em que a morte de Lampião e seu bando correu por manchetes de todo
o nordeste, que muitos afirmaram que o cangaço havia sido extinto. As Forças
Volantes, organização militar criada com o intuito de exterminar os cangaceiros
do sertão, acabaram por cumprir seu dever, carimbando, porém, o cangaço como um
dos maiores marcos socioculturais da história do Brasil.
Mais
de sessenta anos depois, O diretor Wolney Oliveira decide engavetar seu projeto
sobre Virgulino Ferreira da Silva e virar os holofotes para José Antonio Souto
e Jovina Maria da Conceição, que chamam atenção da mídia brasileira quando
assumem ser, na verdade, Moreno e Duvinha, casal do bando do falecido rei do
cangaço.
Apesar
de inúmeros "Nordesterns", dramatizações que retratam o cangaço, Os Últimos
Cangaceiros é o primeiro documentário sobre esse tema, sendo o produto de uma
densa e detalhada pesquisa por vários estados brasileiros, interpolada pelas únicas
filmagens reais do bando, feitas pelo jornalista libanês Benjamin Abrahão e por imagens de clássicos do nosso cinema, como
Baile Perfumado (1996) de Lírio Ferreira e Paulo Caldas, O Cangaceiro (1951) de
Lima Barreto e, claro, Corisco e Dadá (1996)
do cearense Rosemberg Cariry. Tudo isso rendeu ao filme certo destaque e
prêmios como 3º Troféu Coral de documentário no Festival de Havana.
Num
contexto histórico, é interessante a acentuada semelhança entre a história de Moreno,
que após ser açoitado pela polícia local, virou um cangaceiro por vingança, e a
construção de personalidade de um anti-herói contemporâneo. Os cangaceiros sempre
tiveram uma forte ambiguidade em relação a sua imagem devido ao embate contra
a repressora Ditadura Vargas, porém, usando métodos hediondos, ou, no mínimo,
amorais, o que gerou certo incômodo durante a exibição. Pode-se assumir, entretanto,
que houve uma espécie de perdão em virtude da valorização cultural, que banhou
o documentário em bom humor e muito saudosismo.

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