Pular para o conteúdo principal

Olmo e a Gaivota (2015) | A tênue linha entre ficção e realidade


Olmo & the Seagull
A gravidez é, por sua essência, feminina. Houve diversas leituras cinematográficas, em variados gêneros, desse momento particular da mulher. A abordagem refere-se a gravidez como um momento de sensibilidade, extremo afeto e reafirmação feminina. Olmo e a Gaivota, no entanto, traz um olhar real da gravidez, de uma mulher que está, de fato, grávida e procura evidenciar todos os transtornos, questionamentos, medos e inseguranças que uma mulher sente à espera de um bebê.

Dirigido por Petra Costa, veterana com seu longa Elena (2012), e a dinamarquesa Lea Glob, com seu primeiro longa-metragem, Olmo e a Gaivota interpõe de forma sutil o que é fictício e verdadeiro ao retratar a vida do casal Olivia Corsini e Serge Nicolai, ambos os atores teatrais. Às vésperas de saírem a turnê por Nova Iorque pela peça A Gaivota, são surpreendidos pela gravidez de Olivia.

A naturalidade a qual se dá o filme é pelos atores estarem interpretando eles mesmos, pois a gravidez também é real, assim como os dilemas de Olivia. O roteiro busca manter a atriz como ponto central, se desenvolvendo através de sua narrativa, que se faz compreensível, presente e metafórica, dando a impressão de cenas improvisadas. E é na verdade transposta por pensamentos de Olivia que se obtém um roteiro simples, mas sincero e intenso, que propõe ao espectador questionar-se quanto aos conceitos impostos à mulher e ao homem durante uma gravidez e um relacionamento.

A exploração do íntimo na direção de Petra e Lea agregou à trama. Íntimo este que não se “acanhou” perante as câmeras nas cenas paradas de Olivia observando a transformação de seu corpo, ou ainda nas cenas de intimidade sexual do casal. O desfoque e aproximação em cena, unidos à fotografia natural, a belíssima trilha sonora e à exibição de vídeos antigos da atriz, convêm com o envolvimento proposto pelo roteiro. Entretanto, nos momentos de interrupção das diretoras, claramente intencionado a tornar o longa o mais real possível, acaba, mesmo que por alguns minutos, rompendo o envolvimento do espectador, dando a impressão invasiva ao tocar em assuntos delicados e particulares do casal como infidelidade.



O desafio proposto pelas diretoras com o filme/documentário é definido, ainda que sutil devido à narração subjetiva. Olmo e a Gaivota é essencialmente feminino, e a maneira como abordou o tema da gravidez por outros olhos – os olhos de quem está vivendo na pele – tem sucesso em trazer à tona discussões acerca da função da mulher e do homem, enquanto futuros pais; da solidão materna; das inseguranças femininas; como ser livre como uma gaivota; e se realmente a vida que se leva no ventre é “quem dita as regras do jogo”. E com essa temática, merece atenção por, além de ser contemplado pelo olhar feminino, possuir uma direção ousada e, de certa forma, inovadora.

Avaliação: 

Texto de Hillary Maciel.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

O Massacre da Serra Elétrica (1974): Salve-se quem puder

Não é pra todo mundo. Fato. Mas para qualquer fã de filmes de terror, O Massacre da Serra Elétrica original é quase como um obra de arte irretocável, sendo como um dos mais impactantes filmes de horror já feito na história da linguagem. Lançado em 1974 por Tobe Hooper ainda em início de carreira, a obra não apenas marcou a época como também serviu de ponto de partida para uma nova fase do horror no cinema, decolando em níveis além daqueles imaginados por Alfred Hitchcock e Roman Polanski . A história aqui, baseada na vida do psicopata real Ed Gein , o assassino cuja carnificina já havia ganhado as telas do cinema através do personagem de Norman Bates em Psicose , desenvolve um grupo perseguido incansavelmente por Leatherface, antagonista cuja máscara é um dos objetos mais reconhecíveis da história do cinema: você pode até não ter visto o filme, mas sabe que ele usa a pele de suas vítimas para esconder o seu rosto. O Massacre da Serra Elétrica:  Salve-se quem puder ...

Victoria e Abdul (2017) | Acerto em abordar a intolerância

Judi Dench é uma das damas britânicas de maior influência no cinema euro-estadunidense. Dona uma extensa e premiada filmografia, que inclui um Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante em 1999 por “Shakespeare Apaixonado” , a atriz tem como uma de suas mais conhecidas interpretações a do longa-metragem “Mrs Brown” (1997), onde encarna a histórica Rainha Victoria. Consagrada então como uma favorita dos britânicos para interpretar figuras de poder - feito também atingido por Helen Mirren com “A Rainha” (2006) -, a atriz volta a interpretar a monarca em “Victoria & Abdul - O Confidente da Rainha” (2017), filme produzido pela BBC que reafirma sua frutífera parceria com o cineasta Stephen Frears , explorada anteriormente no comovente drama biográfico “Philomena” (2013). Este gênero, inclusive, parece ser um dos que Frears é melhor sucedido; além do filme de 2013, ele também está por trás do já aqui citado “A Rainha” e, mais recentemente, da comédia dramática “Florence - Quem é Essa Mu...

Homem-Aranha: De Volta ao Lar (2017) | Humor jovem e frescor adolescente

Spiderman: Homecoming (EUA) Com outro  reboot lançado pela Sony Pictures, neste caso a encargo de Jon Watts ( "A Viatura" , 2015) o super-herói "cabeça de teia" volta aos cinemas. Desta vez, ele retorna carregando um grande diferencial: a Marvel, famosa gigante dos quadrinhos que é responsável pela criação do personagem e teve que vendê-lo anos atrás para a própria Sony, detém novamente do controle criativo sob ele. E foi a partir desta parceria entre os dois estúdios que "Homem-Aranha: De Volta ao Lar"  (2017) nasceu, trazendo referências à situação já em seu próprio título, e assim introduzindo o tão popular Homem-Aranha no Universo Cinematográfico Marvel (Ou "MCU", para os íntimos). E a proposta, como esperado por alguns fãs do gênero, surpreende de forma bastante positiva.  Diferente dos outros dois "filmes de origem" já lançados sobre o personagem, que foi previamente interpretado por Tobey Maguire (entre 2002 e 2007) ...