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Os Oito Odiados (2016) | Entre a surpresa e o cansaço

The Hateful Eight (2016)
Apesar de relativamente jovem, Quentin Tarantino cujo nome é por vezes maior que a própria obra, consegue levar às salas de exibição fãs que aguardam com ânsia cada estreia, mesmo que seja para falar mal de cada um de seus filmes. Da geração atual, talvez o Christopher Nolan goze de tal façanha perante os cinéfilos. 

E assim surge Os Oito Odiados (The Hateful Eight), lançado após uma espera de três longos anos desde Django Livre. Um apaixonado, sobretudo, pelo cinema, Tarantino traz para este seu novo trabalho, características marcantes de outros trabalhos seus em um gênero que tanto venera, o western. O filme narra a história de oito pessoas difíceis tendo que lidar com a presença um do outro. Após uma apaixonante abertura em que focaliza um cristo de madeira repousando na neve em uma aparente tranquilidade, o plano vai pouco a pouco abrindo e somos apresentados a John Ruth (Kurt Russell), um caçador de recompensas que transporta a perigosa Dayse Domergue (Jennifer Jason Leigh) e o Major Marquis Warren (Samuel L. Jackson). Após calorosas discussões guiadas inclusive por questões raciais e tremenda misoginia, o trio parte rumo à Red Rock. 

Pouco mais adiante eles encontram Chirs Manix (Walton Goggins), que afirma ser o novo xerife de Red Rock, e que também está indo para a cidade. O trio tem dúvidas se ele é o que afirma ser, mas mesmo assim, por via das dúvidas, e após uma nova e calorosa discussão, seguem em viagem tendo como ponto de descanso durante a nevasca o “Armarinho da Minnie”. Lá um outro grupo, bastante suspeito, aguarda a nevasca passar. Eles terão que conviver com a desconfiança mútua e o perigo constante que a desconfiança traz. Filmado em 70mm, esse filme claustrofóbico passa-se na maior parte dentro do Armarinho, dando um caráter quase teatral às cenas, que se passam em várias camadas de planos.  É preciso prestar atenção em todos os detalhes, e Tarantino nos premia com a possibilidade de escolha. Outra característica do diretor se faz presente e os diálogos afiados dentro do espaço diminutos trazem um dos principais trunfos do cineasta e também um dos motivos para que a narrativa se torne em determinados momentos estritamente arrastada. 

Com relação às atuações, destacamos a de Jennifer Jason Leigh, cuja personagem Dayse Domergue, iguala-se aos outros no seu caráter detestável. Chega a incomodar o excesso de abusos físicos e psicológicos que a personagem sofre no longo processo, e seu caráter cínico parece a única arma que ela possui diante da disparidade de força entre ela e os homens. É sem dúvida uma grande aposta para Melhor Atriz Coadjuvante. Por outro lado, Channing Tatum segue como um ator que não se deve ser levado a sério com seu breve e quase dispensável personagem Jody. Falar da supremacia de Samuel L. Jackson e Kurt Russell se torna um pleonasmo e impressiona, de maneira positiva, a coragem que Tarantino tem de expor seus personagens à morte, tenham eles a importância que tiver.

Outro grande destaque é a trilha sonora assinada pelo grande Ennio Morricone, embalando os fortes diálogos e já esperadas cenas sangrentas de extrema violência (embora, estranhamente, de certa forma comedidas neste filme).

A apresentação dos momentos por capítulos é um recurso bastante utilizado pelo diretor e totalmente dispensável tendo em vista o arrastar sem fim de alguns deles, sobretudo o primeiro e o terceiro, repletos de diálogos que se estendem além do esperado e que se tornam precisos, porém cansativos. O tempo da película, duas horas e quarenta e oito minutos, é um ponto crucial e que incomoda, ainda mais se levarmos em conta os momentos arrastados do roteiro, que poderiam, sem prejuízo, serem diminutos. Os fãs mais ardorosos dirão que não importa o tempo do filme, que não se percebe o tempo passar ao assistir a um filme de Tarantino, mas até o mais convicto deles deve reconhecer que há um limite para a permanência seguida em uma sala de cinema, embora acompanhar a saga dos oito (na verdade nove, se contarmos com o cocheiro) durante quase três horas, embora com todas as justificativas possíveis, não deixa de ser cansativa.

Como dissemos à princípio, alguns diretores conseguem trazer um público cativo para prestigiarem suas histórias, mesmo que essas não mereçam atenção. Não é o caso deste trabalho de Tarantino, que embora não seja o melhor de seus filmes não é de forma alguma um trabalho esquecível. O diretor mostra-se afiado como sempre, e demonstrando a maturidade e completo domínio de câmera que, juntos, fazem dele um dos melhores diretores da atualidade.

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