| The Peanuts Movie (2015) |
Snoopy, criado pelo cartunista Charles M Schulz, surgiu pela primeira vez em 1950 e desde então vem encantando gerações de crianças e adultos. O pequeno beagle que cujo melhor amigo é o passarinho Woodstock tem como dono de estimação Charlie Brown, personagem que apesar de todo o seu vitimismo é, por alguma razão, carismático. Que puxa! Charlie é inseguro e tem uma autoestima baixa que é motivada por uma insistente falta de sorte sem fim.
Charlie e Snoopy fazem 65 anos e para comemorar a existência da turma surge The Peanuts Movie. O que percebemos logo de cara é que, apesar da animação ser produzida em 3D, permanece bastante fiel aos traços delicados e às cores vibrantes idealizadas por Schulz. O efeito vem como um charme a mais, uma cerejinha no bolo e, de certa forma, dispensável. Totalmente nostálgico, o filme fará muitos fãs adultos suspirarem com as antigas histórias que viram tantas vezes na infância.
Todos os momentos que fizeram deste desenho um clássico moderno estão lá: o abuso de Lucy, o amor pelos esportes da Patty Pimentinha (e sua fiel ajudante Márcia), o eterno pessimismo irritante do Charlie, Linus e seu cobertor que ainda fascinam a pequena Sally Brown, a dança onde cada um dança de sua maneira. É tudo bem doce e encantador para o público acostumado com as aventuras e traz muitos de volta a uma velha infância. (Durante a sessão percebemos, de fato, que a maior parte das pessoas que riam com as aventuras era adulta)
A história é bem trivial, trazendo um resumo de pequenos episódios já conhecidos da vida de Charlie, e iluminados pela chegada de uma nova garota na comunidade. A menina dos cabelos vermelhos chama a atenção do garoto azarado, e este tenta se motivar a ser um novo "homem" a partir de então. Mas, que puxa! Charlie não tem coragem de chegar perto dela! Sua baixa autoestima faz com que anule qualquer oportunidade, e seu pessimismo não o deixa ultrapassar a barreira da conversação.
Charlie é daqueles personagens que são um pouco irritantes por seu eterno vitimismo, mas se o olharmos a fundo podemos perceber que por baixo daquela sombra reside um pequeno otimista. Apesar de ter sempre um pé na má sorte, ele não desiste teoricamente de tentar, e embora acredite ser o mais torvo dos garotos, ele irá atrás de seus sonhos. Charlie não consegue empinar uma pipa, embora saiba todas as técnicas, perde jogos imaginários, consegue derrubar muros e destruir planos apenas com sua má sorte, mas está lá, sempre lutando contra o universo que teima em lhe derrubar. Essa é a beleza de Charlie, este é o seu mérito verdadeiro, seu trunfo para conquistar o seu primeiro amor. Mas ele não sabe disso.
Acontece algo inesperado na vida deste pobre menino: em um lampejo de sorte ele recebe a nota máxima no teste da escola e passa a ser saldado pelos colegas, que passam a pensar que ele é um gênio. Mesmo ainda acreditando não ser digno de tais homenagens, Charlie começa a se motivar, e até a sorte parece lhe sorrir quando ele decide escrever um resumo não de um trabalho comum, mas do gigante Guerra e Paz, de Tolstoi; Tudo isso para ganhar pontos com a garota dos cabelos vermelhos que não tem nome.
Entremeando a história principal temos os momentos em que Snoopy, inspirado por tudo que acontece ao seu redor, começa a escrever sua própria história na sua inigualável máquina de escrever. Dentro de seus sonhos, Snoopy é um aviador que tenta salvar das mãos do Barão Vermelho uma doce e cor de rosa pilota. As sequências de sonho do cãozinho se tornam a parte mais enfadonha do filme, e embora saibamos da importância delas na série, não deixamos de suspirar entediados quando a narração de Charlie é interrompida para mais um devaneio do Snoopy.
Mas no final é tudo tão reconfortante e inofensivo! Os desenhistas atuais mantiveram a ideia central dos Peanuts e são extremamente fiéis à história inicial, limitando a expansão de modernidade ao recurso 3D. Algumas pessoas questionaram a preferência em manter os cenários, ações, roupas e atitudes de uma América da década que já não existe e negarem atualizações que para eles seriam importantes. Charlie ainda se comunica com telefones de cordas, Snoopy ainda usa uma máquina de escrever (que as gerações mais novas se perguntarão o que é) e os adultos nunca são vistos ou ouvidos, mas percebemos que a intenção verdadeiramente não é a de se atualizar ou fazer representações atuais e sim um resgate de uma infância já há muito vivida. Essa era a proposta de Schulz, e o filme cumpre bem.
A turma do Charlie Brown se tornou cult para uma leva de adultos, o que não desvanece a esperança que as novas gerações possam ver cores nesse desenho que transborda de nostalgia. The Peanuts Movie traz momentos de satisfação para os fãs de longa data e uma lembrança doce de como se era feliz naquela época cuja maior preocupação era estar alimentado ou aquecido.
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