Nada é mais intrigante a um leitor do que um desafio, e não há desafio maior do que ler pela primeira vez uma das obras do escritor português, José Saramago. A escrita característica, com a ausência de certas pontuações, e a junção da narração com as falas dos personagens são traços conhecidos do autor, mas sua marca registrada já é outra: o pesar da ironia e o sarcasmo, particularidades poderosas que enriquecem a obra com riqueza textual e uma provocação ao leitor. Não podia estar mais acanhada ao pegar o livro "As Intermitências da Morte", mas a curiosidade pela sua história cativante e única, além da experiência de presenciar uma personificação da Morte, foi o suficiente para me dar um empurrão e começar a leitura.
"No dia seguinte, ninguém morreu"
Naquele país, ninguém morreu no dia 1º de janeiro. Nem no segundo dia, nem no terceiro e aí por diante. Pelo o que parecia, a morte resolveu tirar férias, se aposentar ou qualquer outro destino que a tenha impedido que completar o seu dever. Por mais trágicos que fossem os acidentes, por mais anos de idade que uma pessoa tinha, por mais fatais que eram as doenças, nenhuma alma mortal conseguiria finar-se, "bater as botas", falecer ou "passar dessa para a melhor".
Não morrer independente do que acontecesse? A ideia parecia incrível, pelo menos nos primeiros dias. Bandeiras foram espalhadas pelo país e as pessoas foram para as ruas comemorar o que parecia ser a descoberta para a vida eterna. Mas, aos doentes que só tinham a morte como esperança, aos idosos que não aguentavam mais viver, aos acidentados que só queriam que a dor parasse e, por mais egoísta que pareça, aos donos de funerárias, a ausência da morte não era motivo para comemoração. O objetivo? Falecer. Se aquele país estava com a taxa de mortalidade negativa, a solução era atravessar as fronteiras, desafiar a morte.
A própria resolve, então, intervir. Com altos graus de excelência e uma escrita nem tão rebuscada até o momento, a Morte manda, então, uma carta declarando que a partir da meia-noite, tudo voltaria ao normal, com exceção de um detalhe: todas as pessoas receberiam um recado uma semana antes de presenciarem a visita da emblemática personagem e "passar desta para a melhor". Por mais disposta que Morte estava para seguir suas novas regras, a sua personificação estava influenciando - diga-se atrapalhando - suas decisões, e estava a transformando em algo quase... humano.
Para quem não gosta do estilo de escrita de Saramago, a boa notícia é que, a partir do meio do livro, a estrutura alcança a forma clássica, facilitando a leitura e combinando com a elegância do texto. Com um dos melhores finais dos livros que já li - e com a surpresa da "humanização" de um dos maiores medos e tabus da contemporaneidade - Saramago ultrapassa minhas expectativas, que já eram altas devido ao seu livro mais famoso "Ensaio sobre a Cegueira", e entrega (mais) uma obra digna de ser lida e relida, não só pela filosofia e a subjetividade trabalhada na história, mas por ser, simplesmente, uma leitura muito prazerosa.


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