| Julieta (Espanha) |
Percebemos, desde a abertura dos créditos, que Julieta tratará sobre o universo feminino, quando metaforicamente presenciamos uma vagina pulsando nas dobras do tecido que cobre o corpo de nossa protagonista. Ele é vermelho, e ela embala em plástico bolha uma escultura de um homem com o falo cortado ao meio. É aquele o papel que o sexo masculino representará durante toda a história que envolve apego ao passado e uma necessidade quase doentia de tentar se explicar.
E aí temos Julieta, embalando seu passado, colocando-o dentro de uma caixa e partindo para uma nova vida em Portugal ao lado de Lorenzo (Darío Grandinetti). Seu rosto esconde mágoas, e ela oculta parte de sua vida do homem que decidiu envelhecer ao seu lado. Até que o encontro com uma amiga a faz reviver todo o drama de ter sido abandonada pela filha. Como uma viciada, paralisa mais uma vez sua tentativa de sobrevivência e retorna ao vazio do drama, ao apartamento onde vivera os últimos tempos com Antía (Blanca Parés). É uma mulher repleta de culpa, e é mesmo difícil compreender como caminha ereta carregando tão grande peso na alma.
Todos os elementos que permeiam a obra de Almodóvar estão lá: o caráter forte das mulheres, mesmo nos momentos de maior fragilidade, com sua culpa ancestral piscando como um alerta; a cor vermelha dos créditos, das paredes, das roupas, em consonância com o azul vestido tantas vezes por sua protagonista; os homens colocados não como vítimas ou vilões, mas como seres infinitamente mais frágeis e que nem sempre sabem se colocar diante de mulheres tão fortes.
E o protagonismo é sempre delas, assim como o medo e a culpa, palavra chave de todo o enredo. São elas, no entanto, que decidem seus movimentos. Julieta recebe uma carta de Xoan (Daniel Grao), e parte para seu encontro; é Marian (Rossy de Palma) quem indica se ela deve ou não ficar ao lado de seu patrão e provoca com seus atos as atitudes de Julieta - é sua filha quem decide partir. Aos homens, representados sabiamente como uma escultura de peso (para que não voe com o vento), a angustiante espera por uma resposta que nem sempre vem.
Os objetos na obra do diretor são fatores chaves que se transformam em personagens participativos da trama, indicando porvir ou sentimentos. Quando Julieta decide não seguir Lorenzo a Portugal, vemos na parede o X do ponteiro do relógio. E quando ela encontra-se em uma das maiores encruzilhadas de sua vida, derramando-se em dor, temos atrás dela um quadro com um lodo escorrendo. Nada é por acaso; as composições estéticas, os cenários e a decupagem de seus filmes trazem detalhes que as palavras nem sempre conseguem demonstrar e merecem ser observados atentamente. Cada um deles merece não uma, mas diversas vistas para que a maior parte desses detalhes possam ser melhor captados.
E se os objetos de cena quase tomam vida em seus filmes, também a belíssima trilha sonora assinada por Albert Iglesias (que acompanha o diretor já há alguns filmes como Fale com Ela e A Pele que Habito) se faz presente em tons fortes durante toda a exibição. E o diretor gosta de trabalhar com sua turma, que inclui tantas atrizes hoje queridas e reconhecidas como suas musas. É sempre um prazer ter algumas das mais antigas participando ativamente em suas películas. Aqui temos Rossy de Palma, que com a marcante personagem Marian é a representação ancestral daqueles que insistem em ampliar a culpa que o corpo feminina carrega desde o ventre. O excelente elenco traz duas atrizes formidáveis intercalando-se na personagem principal (Adriana Ugarte e Emma Suárez), de forma tão conjunta que dificilmente as veremos como duas atrizes distintas.
Retomando a maneira como iniciei esse texto, reitero que Almodòvar é um dos diretores atuais que mais se aproximam da alma feminina, exaltando-as em suas características e fortalecendo-as inclusive em seus defeitos. A culpa, presente em todo o meu texto, é apenas uma pequena escala daquilo que nós sentimos diariamente, e da qual não temos como fugir, pelo menos não até a geração atual, embora lutemos para refazer a nossa maneira de enxergarmos como seres humanos.
Por fim, dizer que o filme refere-se apenas ao relacionamento entre mãe e filha é diminuir todos os sentimentos amplos com relação ao feminino. Julieta não passou a sentir-se daquela maneira após a maternidade, foi educada desta maneira, assim como Marian e Ava (Inma Cuesta), que na sua solidão acompanhou em diversos momentos o Xoan, sem nada pedir em troca. Lorenzo se torna o único sopro para uma nova vida que poderia se abrir. Mas para que ela possa ou não adentrar nela é necessário ainda um retorno às origens de sua dor, para que ela possa reescrever sua história.
Julieta é um filme que merece ser visto e revisto por todos os motivos acima apresentados, e sem dúvida uma certeza de que temos na Espanha um dos melhores diretores de nossa contemporaneidade. Pedro Almodóvar, aos sessenta e seis anos, permanece em forma.
Avaliação


Adorei a resenha, me deixou ainda mais curiosa para assistir!!
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