Pular para o conteúdo principal

O Lar das Crianças Peculiares (2016) | Só Tim Burton seria capaz disso

Miss Peregrine's Home For
Peculiar Children (EUA)
Passeando por uma livraria, a capa de “O Orfanato da Srta. Peregrine para Crianças Peculiares” me chamou atenção. Na contracapa, há um comentário de Tim Burton: “Parece algo que eu teria feito”. E essa impressão é instantânea. O livro traz fotos macabras e um enredo fantástico, embora juvenil, igualmente inquietante. O que me lembrou imediatamente a combinação de tramas de formatos simples com um viés macabro, presente principalmente em “Edward Mãos de Tesoura”, “A Noiva Cadáver” e “Estranho Mundo de Jack”. Não é surpresa perceber que esses mesmos títulos pareçam construir o clima de “O Lar das Crianças Peculiares”, porque, embora não seja um grande filme do gênero, a fantasia que tenta ser inovadora ganha uma personalidade mais densa com a presença de Burton e sua afinidade por tudo que já existe na história de Ransom Riggs.

+ O Orfanato da Srta. Peregrine pra Crianças Peculiares | Aventura em formato tradicional

O roteiro de Jane Goldman (uma das cabeças de dois dos ‘X-Men’), tem a capacidade visível de mesclar objetivos de tramas e personagens, o que acaba por transformar a maneira como compreende os próprios espaços. Jake, por exemplo, tem um nó bem definido: vive em uma realidade, conhece outra, não sabe a qual pertence. E ao mesmo tempo que põe em evidência uma invasão psicológica sobre essa decisão, nada fica tão escancarado como uma possível polarização dos núcleos. As duas realidades convertem-se para a que importa: estamos seguindo Jake. Isso significa que algumas situações óbvias têm importâncias deixadas de lado, como o processo de acreditar rapidamente que está em 1943. Por outro lado, essa clareza simplifica demais seus pontos de virada, tornando as soluções unicamente funcionais – um gancho no meio do filme surge para solucionar o grande problema do clímax, e por aí vai. 

O imaginário de Burton funciona também com muita música nos momentos em que assume e abraça a fantasia. A trilha, com a saída de Danny Elfman (parceiro de longa data) desse crédito, apresenta um baque perceptível ao se adaptar às situações de maneira genérica. O que, necessariamente, não danifica o calor de suas aventuras, mas reduz o impacto. A fotografia de Bruno Delbonnel não faz questão de repetir as dualidades visuais que há na filmografia de Burton e resolve construir algo uno e sincero; a iluminação sempre muito azulada e a neblina fraca cria um clima crível, principalmente ao se encaixar com a unidade dos ambientes independente da época em que estão.

A adaptação literária torna-se muito evidente na corrida do roteiro para abarcar o maior número de acontecimentos e tentar entrega-los o mesmo grau de impacto. É inteligente por parte da abordagem que muitas informações sejam omitidas e até mesmo excluídas com muita propriedade - situação que danifica muitas adaptações, aqui torna-se um processo justo. Quando lhe convém amarrar nós não previstos, porém, há uma bagunça inesperada. No entanto, quando o próprio Tim Burton aparece no caos da cena em um corte muito rápido, volta à mente o quanto tudo aquilo diverte o próprio diretor e principalmente a plateia. Só ele teria a confiança para engrossar uma trama com apelo macabro e, ainda assim, achar espaço para pôr caveiras batalhando com monstros invisíveis em um parque de diversões ao som de música eletrônica. “O Lar das Crianças Peculiares” é, em poucas palavras, um filme simplesmente divertido. Mas temos provas e convicções que Tim Burton um dia foi muito mais que isso.

Avaliação


Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Homem-Aranha: De Volta ao Lar (2017) | Humor jovem e frescor adolescente

Spiderman: Homecoming (EUA) Com outro  reboot lançado pela Sony Pictures, neste caso a encargo de Jon Watts ( "A Viatura" , 2015) o super-herói "cabeça de teia" volta aos cinemas. Desta vez, ele retorna carregando um grande diferencial: a Marvel, famosa gigante dos quadrinhos que é responsável pela criação do personagem e teve que vendê-lo anos atrás para a própria Sony, detém novamente do controle criativo sob ele. E foi a partir desta parceria entre os dois estúdios que "Homem-Aranha: De Volta ao Lar"  (2017) nasceu, trazendo referências à situação já em seu próprio título, e assim introduzindo o tão popular Homem-Aranha no Universo Cinematográfico Marvel (Ou "MCU", para os íntimos). E a proposta, como esperado por alguns fãs do gênero, surpreende de forma bastante positiva.  Diferente dos outros dois "filmes de origem" já lançados sobre o personagem, que foi previamente interpretado por Tobey Maguire (entre 2002 e 2007) ...

O Massacre da Serra Elétrica (1974): Salve-se quem puder

Não é pra todo mundo. Fato. Mas para qualquer fã de filmes de terror, O Massacre da Serra Elétrica original é quase como um obra de arte irretocável, sendo como um dos mais impactantes filmes de horror já feito na história da linguagem. Lançado em 1974 por Tobe Hooper ainda em início de carreira, a obra não apenas marcou a época como também serviu de ponto de partida para uma nova fase do horror no cinema, decolando em níveis além daqueles imaginados por Alfred Hitchcock e Roman Polanski . A história aqui, baseada na vida do psicopata real Ed Gein , o assassino cuja carnificina já havia ganhado as telas do cinema através do personagem de Norman Bates em Psicose , desenvolve um grupo perseguido incansavelmente por Leatherface, antagonista cuja máscara é um dos objetos mais reconhecíveis da história do cinema: você pode até não ter visto o filme, mas sabe que ele usa a pele de suas vítimas para esconder o seu rosto. O Massacre da Serra Elétrica:  Salve-se quem puder ...

Jornada nas Estrelas: O Filme (1979) | O primeiro equívoco

Star Trek: The Motion Picture (EUA) Diante de tantos filmes com temática espacial, Gene Roddenberry , CBS e a Paramount necessitavam levar a franquia, que já havia sido consolidada por mais de dez anos na televisão (devido as inúmeras reprises), para os cinemas. Desse modo, Star Trek: The Motion Picture estreou em 1979, logo após 2001: Uma Odisseia no Espaço , Solaris , Star Wars , Alien – O Oitavo Passageiro , Superman – O Filme , Contatos Imediatos de Terceiro Grau e outros. E talvez esse tenha sido o seu maior equívoco: esperar o sucesso dos demais pra se lançar na sétima arte.  O longa inicia de forma calorosa, receptiva e acolhedora, ao apresentar novamente todos os seus personagens, com desenvolvimentos e explicações aceitáveis para com o universo que demorou para continuar em outra mídia. A música, conduzida pelo gênio  Jerry Goldsmith , conhece a essência da franquia e cria um ritual, ao lado dos efeitos visuais, práticos e da fotografia, para todo...