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Eu, Daniel Blake (2016) | O discreto charme da burocracia

Eu, Daniel Blake : Poster
I, Daniel Blake (UK)
A análise da burocracia e do autoritarismo do Estado são recorrentes no cinema contemporâneo. Desde o episódio A Bombinha, pertencente ao filme argentino 'Relatos Selvagens' (2014), até o nacional 'Saneamento Básico' (2007), são apresentados os entraves subsequentes da burocratização em seus diversos âmbitos, seja um guincho indevido ou a necessidade de verba para conserto de um córrego. 

Em 'Eu, Daniel Blake' o problema se inicia quando há a suspensão do auxílio acidente de Daniel (Dave Johns), que sofrera um ataque cardíaco. Seus médicos atestam que ele está impossibilitado a voltar a trabalhar; porém o departamento federal alega que Daniel deve voltar a trabalhar, ou procurar o auxílio desemprego – tendo que, para este, provar que está entregando currículos e procurando emprego. Daniel, viúvo, reencontra os valores familiares em Katie (Hayley Squires), uma mãe solteira recém-chegada em Tottenham, e em seus dois filhos.

A influência do processo burocrático na vida de Daniel potencializa-se ao longo da trama, e a estética do filme legitima essa gradação de acontecimentos. As paletas de cores harmônicas da residência de Daniel, onde se passa grande parte do início do filme, contrastam com as cores fortes e duras do prédio governamental. Além disso, o protagonista é cada vez mais afastado de seu lugar comum. Seja pela necessidade de concluir tarefas através do computador, ou pela necessidade de vender seus próprios móveis por uma questão financeira, mantendo-se mais longe de sua falecida esposa e de seu passado. 

Outro ponto a ser mencionado é a condição de Daniel como figura de resistência. Assim como Clara (Sonia Braga) em 'Aquarius' (2016), Daniel é o lado mais fraco da disputa de poder contra uma grande corporação – representada no filme inglês pelo Estado. Ambos personagens instauram-se como figuras solitárias em seus processos de resistência; apesar de possuírem aliados ao longo de suas tramas, o desamparo é intrínseco a eles, potencializando a ineficácia de uma luta subjetiva. Entretanto, diferentemente da abordagem feita por Kleber Mendonça Filho em Aquarius, o diretor Ken Loach apresenta uma crítica sutil e eficaz do sentimento de impotência do sujeito para com o sistema – seja ele qual for. Toda e qualquer possibilidade de redenção é inibida pela majoritariedade de uma força de poder muito além do popular, que se mostra preparada para combater qualquer demonstração de resistência. Daniel Blake é o último suspiro de vigor de uma sociedade fadada ao silêncio. 


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