Pular para o conteúdo principal

Campo Grande (2016) | Traumas urbanos

Campo Grande (Brasil)
Com um país de problemas sociais tão emergentes, o cinema nacional sempre teve o interesse de trazer essas questões para a tela de forma ficcional. E, recentemente, filmes como ‘Que Horas Ela Volta?’, de Anna Muylaert, ‘Casa Grande’, de Fellipe Barbosa e até mesmo ‘Aquarius’, de Kléber Mendonça Filho, vêm configurando cada vez mais essa expressão. ‘Campo Grande’ traz como tema o abandono de menores, mas não olha para essa ocorrência unicamente como uma reflexão social. Sandra Kogut está mais interessada nas nuances do que rotula como uma “pequena aventura” e encaixa, sutilmente, questões maiores.

Só em construir uma dualidade improvável entre Carla Ribas (Regina no filme) e o jovem Ygor Manuel de modo incrivelmente real, ‘Campo Grande’ já esbanja mérito. Isso porque Sandra é inteligente ao não congelar suas vítimas à figura óbvia. Ygor, mais que Rayanne, tem um espaço de respiro dentro do filme capaz de lhe engrossar como objeto principal da narrativa. Desenhado entre a maturidade e a inocência, seu personagem conversa diretamente com as questões explícitas em discussão. Até mesmo a relação passiva/conturbada entre Regina e Lila (Julia Bernat) é observada sob seu olhar sempre investigativo.

Diante a aflição/ansiedade do reencontro com a mãe, Ygor e Rayanne também dividem diálogos que impressionam pela organicidade de suas inserções na trama. Na primeira cena em que aparecem juntos isso já fica muito claro. “Rayanne, calma! Eu vou encontrar ela” - a clareza da relação surge sólida e a trajetória se monta como uma jornada imprevisível; tanto dos irmãos em busca da mãe, quanto do espectador para compreender as dúvidas deixadas.

Por cima da inocência, o roteiro da Sandra em pareceria com Felipe Sholl ainda encontra um estudo de classes muito sutil. A abordagem inicialmente sistemática de Regina projeta seu olhar sobre o fato de modo superficial: há um problema que precisa ser resolvido. E encaixar sua resolução complexa no meio de outros tormentos pessoais parece inviável. É ainda mais interessante que Regina não passe pelo processo de afeição às crianças de maneira genérica. Sua aproximação ao problema reflete a intransigência dos outros; as difíceis relações com a filha e o ex-marido e até mesmo com seu próprio espaço. Enxergar alguém que também busca retornar à uma vida mais lógica gera afinidade sem que seja preciso desmontar a personagem.

Não gerando uma conclusão congruente ao problema, ‘Campo Grande’ se determina como uma imersão de alma muito sensível nesses pequenos dramas. Para isso, retoma uma fantasia inocente que convive com a maturidade de seu protagonista. Trazendo a cidade como um espaço labiríntico que consegue ser afável e repressor, o filme encontra uma sociedade alheia aos traumas urbanos. Enxerga-los pode ser útil para uma resolução utópica?


Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Homem-Aranha: De Volta ao Lar (2017) | Humor jovem e frescor adolescente

Spiderman: Homecoming (EUA) Com outro  reboot lançado pela Sony Pictures, neste caso a encargo de Jon Watts ( "A Viatura" , 2015) o super-herói "cabeça de teia" volta aos cinemas. Desta vez, ele retorna carregando um grande diferencial: a Marvel, famosa gigante dos quadrinhos que é responsável pela criação do personagem e teve que vendê-lo anos atrás para a própria Sony, detém novamente do controle criativo sob ele. E foi a partir desta parceria entre os dois estúdios que "Homem-Aranha: De Volta ao Lar"  (2017) nasceu, trazendo referências à situação já em seu próprio título, e assim introduzindo o tão popular Homem-Aranha no Universo Cinematográfico Marvel (Ou "MCU", para os íntimos). E a proposta, como esperado por alguns fãs do gênero, surpreende de forma bastante positiva.  Diferente dos outros dois "filmes de origem" já lançados sobre o personagem, que foi previamente interpretado por Tobey Maguire (entre 2002 e 2007) ...

O Massacre da Serra Elétrica (1974): Salve-se quem puder

Não é pra todo mundo. Fato. Mas para qualquer fã de filmes de terror, O Massacre da Serra Elétrica original é quase como um obra de arte irretocável, sendo como um dos mais impactantes filmes de horror já feito na história da linguagem. Lançado em 1974 por Tobe Hooper ainda em início de carreira, a obra não apenas marcou a época como também serviu de ponto de partida para uma nova fase do horror no cinema, decolando em níveis além daqueles imaginados por Alfred Hitchcock e Roman Polanski . A história aqui, baseada na vida do psicopata real Ed Gein , o assassino cuja carnificina já havia ganhado as telas do cinema através do personagem de Norman Bates em Psicose , desenvolve um grupo perseguido incansavelmente por Leatherface, antagonista cuja máscara é um dos objetos mais reconhecíveis da história do cinema: você pode até não ter visto o filme, mas sabe que ele usa a pele de suas vítimas para esconder o seu rosto. O Massacre da Serra Elétrica:  Salve-se quem puder ...

Jornada nas Estrelas: O Filme (1979) | O primeiro equívoco

Star Trek: The Motion Picture (EUA) Diante de tantos filmes com temática espacial, Gene Roddenberry , CBS e a Paramount necessitavam levar a franquia, que já havia sido consolidada por mais de dez anos na televisão (devido as inúmeras reprises), para os cinemas. Desse modo, Star Trek: The Motion Picture estreou em 1979, logo após 2001: Uma Odisseia no Espaço , Solaris , Star Wars , Alien – O Oitavo Passageiro , Superman – O Filme , Contatos Imediatos de Terceiro Grau e outros. E talvez esse tenha sido o seu maior equívoco: esperar o sucesso dos demais pra se lançar na sétima arte.  O longa inicia de forma calorosa, receptiva e acolhedora, ao apresentar novamente todos os seus personagens, com desenvolvimentos e explicações aceitáveis para com o universo que demorou para continuar em outra mídia. A música, conduzida pelo gênio  Jerry Goldsmith , conhece a essência da franquia e cria um ritual, ao lado dos efeitos visuais, práticos e da fotografia, para todo...