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TOC - Transtornada Obsessiva Compulsiva (2017) | Bagunça personalizada

TOC - Transtornada Obsessiva Compulsiva : Poster
TOC - Transtornada Obsessiva
Compulsiva (Brasil)
Nos últimos anos, a maioria dos filmes de maior bilheteria nacional são sempre comédias (com exceção do sucesso escandaloso de 'Os Dez Mandamentos', a novela compacta que ocupou o primeiro lugar do ranking de 2016). E, de certo modo, todas elas obedecem mesmas classificações do gênero - dos mais irritantes, como o uso excessivo de piadas que, quando não estereotipadas, recicladas de formatos televisivos que já não vendem como antes. 'TOC' propõe mexer com esse lugar-comum e se arriscar em uma narrativa que força a oscilação entre gêneros. Na prática, o resultado é realmente distinto, mas consegue ser ainda mais bagunçado e inverosímel ao próprio conceito.

Com uma abertura que rebusca aspectos de universos como Jogos Vorazes e Mad Max de 1979, o roteiro começa provocando uma imersão que, felizmente, acontece. A direção sugestiva alterna plano sobre plano atrás de recriar uma sequência de ação que já vimos em outros filmes. Mas a ideia funciona inicialmente pela surpresa. De repente, a bizarrice de 'TOC' surge com muito escândalo e quando o roteiro se torna sóbrio o susto causa um reboliço. 

O humor da maravilhosa Tatá Werneck parece ofuscado por uma trama que tenta ser muito dramática em meio ao tom cômico insistente. É gradualmente estranho que Tatá não encontre um espaço confortável. Mas esse afastamento está diretamente ligado à sua personagem que é montada aos moldes genéricos de uma "pop-star" - inclusive, a questão final de desprendimento da fama é óbvia demais para que cause comoção. Assim como o uso corriqueiro que envolve Felipão, personagem de Luis Lobianco - acrescentar esse personagem ao destino do filme só não é ainda mais frágil que o uso oportunista do escritor fantasma.

No entanto, o filme ainda tem boas ideias. A personagem de Vera Holtz rende boas risadas, apesar de sua piada se repetir com frequência. Quanto ao molde dramático do roteiro, a inserção de Vladimir (Daniel Furlan) é bem-vinda e funciona muito bem como um escape da própria investida para além da comédia. A cena da dança nos ladrilhos, por exemplo, tem uma força narrativa imensa capaz de criar com delicadeza alguma realidade na relação em questão - e quando sua evolução está se aproximando do comum, a cena tem um corte momentâneo muito engraçado.

'TOC - Transtornada Obsessiva Compulsiva' ainda assim, funciona como um experimento que aponta para uma liberdade da comédia que ainda está por vir. Uma comédia menos atada à objetos comuns de tom, tema e até mesmo estética. O filme ainda tem uma autodefesa interessante e até mesmo engraçada diante uma personalidade que não se torna memorável apesar de todo esforço.

Crítica: TOC - Transtornada Obsessiva Compulsiva (2017)

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