Pular para o conteúdo principal

A Espera (2017) | Lentidão feroz

Resultado de imagem para a espera 2017 binocheO luto é um dos processos mais revisitados no cinema que se atem ao registro do sofrimento. Isso porque é um modo legítimo de justificar sem muito entorno o motivo de seguir aquele personagem – seja por um processo de aceitação ou por qualquer outro interesse que o filme possua com a premissa. O italiano/francês “A Espera” já começa com um grafismo de impacto assombroso. O interesse em incitar um novo tipo de proximidade ao luto de Anna o posiciona entre as motivações possíveis; nunca se torna óbvio o porquê de sua história ser tão atraente. 

Jeanne, namorada do falecido Giuseppe, chega ao casarão da “sogra” Anna pouco depois do velório. Porém, sem saber da fatalidade. Esse traço dramático poderia ser muito frouxo se o ambiente construído não fosse tão assustador. Anna está sozinha, ilhada em um desespero calado, perdida na própria casa. A inserção sutilmente brusca de Jeanne não se torna ameaçadora a esse sentimento tão íntimo, mas o faz se distanciar. Esse pêndulo entre a vida do filho que ainda caminha pela casa e o mórbido oportunismo a partir disso, transforma o que há de corriqueiro em 'A Espera' em um suspense quase psicológico. 

Por esse interesse em ampliar o impacto, a direção de Piero Messina também se deixa ser conduzida por uma desconexão da realidade, quase como uma introspecção da dor. Uma ideia sustentada integralmente por uma fotografia (Francesco Di Giacomo) que planifica cenas comuns como reflexos de um sonho ou abstrações de um sentimento. Em uma das primeiras cenas, Anna segura o celular de Giuseppe em meio a escuridão; a fraca luz azul que reflete sobre seu rosto pálido é o único ponto visível na imensidão escura ao seu redor. O olhar de Piero constrói ambientes que se adaptam a essas transições sentimentais que vão, aos poucos, moldando a personagem de Binoche.

Transformando esse casarão silencioso em um palco de sombras, o roteiro escrito à quatro mãos consegue ser lentamente hábil ao não entregar tudo. A ‘jornada’ se intitula como uma imersão quase desconhecida que edifica as protagonistas como principais alicerces. Jeanne repete algumas vezes que Anna é estranha, e cada vez mais essas indefinições parecem preparar esse clima estagnado em algo de maior fricção. Juliette Binoche e Lou de Laâge dualizam com atuações enigmáticas e a química em cena é arrepiante. Por mais que parte da realidade esteja sendo omitida de Jeanne, suas dúvidas e angústias (principalmente as finais) são muito próximas. Para Anna, conviver com a dor e uma falsa felicidade parece ainda mais doloroso; seu olhar, porém, jamais deixa de ser aflito.

Por se compreender como um filme tão introspectivo, a solução final soa brevemente áspera. O distanciamento não está em entrelaçar seus conflitos muito próximo ao fim e, com isso, incitar uma nova solidão, mas no modo reducionista que materializa a emoção. Ainda assim, o sentimento final é forte o suficiente para que a imersão acabe se infiltrando na intimidade de quem o assiste. ‘A Espera’ é um sincero provocador de impressões que esconde sua ferocidade em uma lentidão brilhantemente enganosa.

A Espera (2017): Lentidão feroz 

  CRÍTICA  


Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Homem-Aranha: De Volta ao Lar (2017) | Humor jovem e frescor adolescente

Spiderman: Homecoming (EUA) Com outro  reboot lançado pela Sony Pictures, neste caso a encargo de Jon Watts ( "A Viatura" , 2015) o super-herói "cabeça de teia" volta aos cinemas. Desta vez, ele retorna carregando um grande diferencial: a Marvel, famosa gigante dos quadrinhos que é responsável pela criação do personagem e teve que vendê-lo anos atrás para a própria Sony, detém novamente do controle criativo sob ele. E foi a partir desta parceria entre os dois estúdios que "Homem-Aranha: De Volta ao Lar"  (2017) nasceu, trazendo referências à situação já em seu próprio título, e assim introduzindo o tão popular Homem-Aranha no Universo Cinematográfico Marvel (Ou "MCU", para os íntimos). E a proposta, como esperado por alguns fãs do gênero, surpreende de forma bastante positiva.  Diferente dos outros dois "filmes de origem" já lançados sobre o personagem, que foi previamente interpretado por Tobey Maguire (entre 2002 e 2007) ...

O Massacre da Serra Elétrica (1974): Salve-se quem puder

Não é pra todo mundo. Fato. Mas para qualquer fã de filmes de terror, O Massacre da Serra Elétrica original é quase como um obra de arte irretocável, sendo como um dos mais impactantes filmes de horror já feito na história da linguagem. Lançado em 1974 por Tobe Hooper ainda em início de carreira, a obra não apenas marcou a época como também serviu de ponto de partida para uma nova fase do horror no cinema, decolando em níveis além daqueles imaginados por Alfred Hitchcock e Roman Polanski . A história aqui, baseada na vida do psicopata real Ed Gein , o assassino cuja carnificina já havia ganhado as telas do cinema através do personagem de Norman Bates em Psicose , desenvolve um grupo perseguido incansavelmente por Leatherface, antagonista cuja máscara é um dos objetos mais reconhecíveis da história do cinema: você pode até não ter visto o filme, mas sabe que ele usa a pele de suas vítimas para esconder o seu rosto. O Massacre da Serra Elétrica:  Salve-se quem puder ...

Jornada nas Estrelas: O Filme (1979) | O primeiro equívoco

Star Trek: The Motion Picture (EUA) Diante de tantos filmes com temática espacial, Gene Roddenberry , CBS e a Paramount necessitavam levar a franquia, que já havia sido consolidada por mais de dez anos na televisão (devido as inúmeras reprises), para os cinemas. Desse modo, Star Trek: The Motion Picture estreou em 1979, logo após 2001: Uma Odisseia no Espaço , Solaris , Star Wars , Alien – O Oitavo Passageiro , Superman – O Filme , Contatos Imediatos de Terceiro Grau e outros. E talvez esse tenha sido o seu maior equívoco: esperar o sucesso dos demais pra se lançar na sétima arte.  O longa inicia de forma calorosa, receptiva e acolhedora, ao apresentar novamente todos os seus personagens, com desenvolvimentos e explicações aceitáveis para com o universo que demorou para continuar em outra mídia. A música, conduzida pelo gênio  Jerry Goldsmith , conhece a essência da franquia e cria um ritual, ao lado dos efeitos visuais, práticos e da fotografia, para todo...