O luto é um dos processos mais revisitados no cinema que se atem ao registro do sofrimento. Isso porque é um modo legítimo de justificar sem muito entorno o motivo de seguir aquele personagem – seja por um processo de aceitação ou por qualquer outro interesse que o filme possua com a premissa. O italiano/francês “A Espera” já começa com um grafismo de impacto assombroso. O interesse em incitar um novo tipo de proximidade ao luto de Anna o posiciona entre as motivações possíveis; nunca se torna óbvio o porquê de sua história ser tão atraente.
Jeanne, namorada do falecido Giuseppe, chega ao casarão da “sogra” Anna pouco depois do velório. Porém, sem saber da fatalidade. Esse traço dramático poderia ser muito frouxo se o ambiente construído não fosse tão assustador. Anna está sozinha, ilhada em um desespero calado, perdida na própria casa. A inserção sutilmente brusca de Jeanne não se torna ameaçadora a esse sentimento tão íntimo, mas o faz se distanciar. Esse pêndulo entre a vida do filho que ainda caminha pela casa e o mórbido oportunismo a partir disso, transforma o que há de corriqueiro em 'A Espera' em um suspense quase psicológico.
Por esse interesse em ampliar o impacto, a direção de Piero Messina também se deixa ser conduzida por uma desconexão da realidade, quase como uma introspecção da dor. Uma ideia sustentada integralmente por uma fotografia (Francesco Di Giacomo) que planifica cenas comuns como reflexos de um sonho ou abstrações de um sentimento. Em uma das primeiras cenas, Anna segura o celular de Giuseppe em meio a escuridão; a fraca luz azul que reflete sobre seu rosto pálido é o único ponto visível na imensidão escura ao seu redor. O olhar de Piero constrói ambientes que se adaptam a essas transições sentimentais que vão, aos poucos, moldando a personagem de Binoche.
Transformando esse casarão silencioso em um palco de sombras, o roteiro escrito à quatro mãos consegue ser lentamente hábil ao não entregar tudo. A ‘jornada’ se intitula como uma imersão quase desconhecida que edifica as protagonistas como principais alicerces. Jeanne repete algumas vezes que Anna é estranha, e cada vez mais essas indefinições parecem preparar esse clima estagnado em algo de maior fricção. Juliette Binoche e Lou de Laâge dualizam com atuações enigmáticas e a química em cena é arrepiante. Por mais que parte da realidade esteja sendo omitida de Jeanne, suas dúvidas e angústias (principalmente as finais) são muito próximas. Para Anna, conviver com a dor e uma falsa felicidade parece ainda mais doloroso; seu olhar, porém, jamais deixa de ser aflito.
Por se compreender como um filme tão introspectivo, a solução final soa brevemente áspera. O distanciamento não está em entrelaçar seus conflitos muito próximo ao fim e, com isso, incitar uma nova solidão, mas no modo reducionista que materializa a emoção. Ainda assim, o sentimento final é forte o suficiente para que a imersão acabe se infiltrando na intimidade de quem o assiste. ‘A Espera’ é um sincero provocador de impressões que esconde sua ferocidade em uma lentidão brilhantemente enganosa.

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