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A Vigilante do Amanhã: Ghost in the Shell (2017) | O cérebro eletrônico faz quase tudo

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Ghost in the Shell (EUA)
Em 1995, ‘Ghost in the Shell’ já chegou aos cinemas como animação; nada mais compatível ao formato que sua história surgiu. E ambos, o mangá e o filme, dividem a mesma origem japonesa. É impossível entrar na sua “revitalização” hollywoodiana sem estranhar uma história que permanece japonesa com uma protagonista (Major) não só ocidental, como obviamente norte-americana. A justificativa de ‘A Vigilante do Amanhã’ diante isso, porém, é felizmente desafiadora.

A história se passa em um futuro onde a relação entre a humanidade e a tecnologia se estreitou a quase seu extremo. Um mundo digital que resume homens e máquinas à mesma condição. Interessando-se pela idealização original de uma sociedade cibernética, a obra consegue construir uma realidade que impressiona. O principal destaque de ‘A Vigilante do Amanhã’ mora nesse vinculo que já foi tão sucateado entre obras originais e “remakes”; o filme tem uma vontade muito grande de agregar um novo olhar que, apesar de reutilizar símbolos, consegue ganhar significância: ora na prática, ora somente no ideal. Ao reconstruir a cidade, por exemplo, evidencia a megalomania do consumismo, e é lógico imaginar que isso seja um aspecto necessário, ainda mais ao ter como principal conflito os ruídos entre o Governo e uma grande corporação responsável por aquela realidade.

“O cérebro eletrônico faz tudo, faz quase tudo. Só eu posso pensar se Deus existe, só eu. Só eu posso chorar quando estou triste, só eu! Eu cá com meus botões de carne e osso, eu falo e ouço. Eu penso e posso. Eu posso decidir se vivo ou morro porque sou vivo, vivo pra cachorro! E sei que cérebro eletrônico nenhum me dá socorro com seus botões de ferro e seus olhos de vidro” 
Gilberto Gil

Rupert Sanders não esquece que ‘Ghost in the Shell’ é uma história de cunho filosófico – bem no estilo Matrix. Seguindo inquietações semelhantes às da canção 'Cérebro Eletrônico' de Gilberto Gil, Major simboliza a busca íntima pela compreensão do “ser” tecnológico. Por viver no espaço tênue entre a natureza e o programático, a dúvida sobre o lugar que ocupa é pertinente. O espírito, chamado de 'Fantasma', é o resquício humano mais íntegro que resistiu, e essa discussão se torna instigante demais para que seja reduzida a alguns devaneios. Dois ou três diálogos do original atentam para a dúvida da Major sobre quem ela é, sobre o que é ser humano. Aqui, ao mesclar com histórias seguintes, o roteiro consegue esticar isso para dar forma a um novo (e talvez seu principal) interesse. Tangencia brevemente a aparência de um conteúdo frágil, mas logo se prova consistente.

Conciliando esse drama com uma jornada de autodescoberta, a ação ganha uma evidência excitante. Essencialmente por conseguir, até mesmo na breve bagunça final, gerar cenas com tensões e abordagens distintas. Uma ação que nunca cansa e que consegue surpreender – parte pela versatilidade que Scarlett Johansson encontra na pele de Major (que faz lembrar sua atuação enigmática em 'Sob a Pele') e parte pelo respeito e ambição de seus realizadores. Em uma das principais cenas, por exemplo, o som da água é ouvido como um estilhaçar de vidro que combina com a aparência peculiar de sua protagonista. 

Quanto a reinvenção, Rupert e seu time conseguem utilizar cada um dos alicerces já existentes na obra e é interessante que consiga moldá-los com uma trama tão diferenciada. A impressão construída é que ‘Vigilante do Amanhã’ se entende como um filme necessário à mitologia original. O fato de Major ser norte-americana ganha uma justificativa curiosa que se confirma nas estrelinhas. Pode ser coincidência ou oportunismo do discurso, mas funciona.

Entregando elementos de sobra, o filme incita um breve pensamento sobre a humanidade escancarando-o quando parece justo. Mas, se nesse ponto encontra transições suaves, peca na resolução burocrática da trama. É uma pena que isso danifique a mensagem política, reduzindo a relação com o antagonismo criado. 

É perceptível que ‘Ghost in the Shell’, mesmo que fruto de outras histórias cibernéticas, inspirou obras futuristas como as peripécias das Wachowski ‘Matrix’ e 'Cloud Atlas', por exemplo. Vindo depois de tantas outras, ‘Vigilante do Amanhã’ consegue, mediante as novas ideias, ser uma união de sua origem e do que ela originou. Major e a Sessão 9, base principal do filme, constituem-se como elementos interessantes e, se a vontade já dita pela Paramount for possível, uma franquia não seria má ideia.

Crítica: A Vigilante do Amanhã - Ghost in the Shell (2017)

O cérebro eletrônico faz tudo. Faz quase tudo.

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