| I Am Not Your Negro (EUA) |
“A história dos negros nos EUA é a história dos EUA”. A frase dita próximo ao fim de ‘Eu Não Sou o Seu Negro’ consegue resumir todos os motivos óbvios pelos quais suas mensagens são tão poderosas e pertinentes à cultura estadunidense e, consequentemente, ao cinema documental contemporâneo. A obra dirigida por Raoul Peck tem não somente o papel de discorrer sobre a imensa repressão que a conhecida história de seu tema envolve, mas também o desafio de trazer isso sob um pensamento íntimo.
Seguindo cordialmente um texto inacabado do pensador afro-americano James Baldwin, o filme se utiliza dessa base para justificar seu raciocínio. A modulagem de sua reflexão parece sempre justa e principalmente sincera ao texto original. É ainda mais intenso que seus encaixes pensem sobre aspectos e detalhes da própria cultura norte-americana, de modo afrontoso à “normalidade” comercializada. Nesse sentido, consegue transmitir ideias além do extenso monólogo interpretado por Samuel L. Jackson, preocupando-se com exemplificações da própria cultural. Afinal, estamos falando sobre como o racismo já foi identitário e politicamente regularizado. Um sentimento que refletia a forma de pensar da classe branca norte-americana enraizada, inclusive, em seus filmes. São muitos os exemplos de cenas que Raoul evoca em sua montagem plural e sua denúncia de carga quase irônica é assombrosa.
A narrativa se desdobra como um estudo histórico dessa ideologia americana. Ao falar de cinema, também se interessa por como a cultura televisiva tem um papel reduzido a um entretenimento tranquilizante. Fazendo uma conexão imediata à relativização perigosa pontuada posteriormente por um homem branco quanto a necessidade de ainda se discutir o racismo.
É incrível que filmes como ‘Eu Não Sou o Seu Negro’ precisem existir por uma questão social lógica e que consigam ultrapassar o próprio discurso. Apesar do desfecho muito rápido, a obra de Raoul consegue ser uma reflexão inovadora sobre feridas que permanecem abertas. Não, não está tudo bem. Essa discussão surge na obra de modo literal ao citar vozes que se escondem sob a justificativa “apaziguadora”. Baldwin responde em uma entrevista indignado quanto a uma idealização de igualdade que nunca existiu, e que permanece na promessa utópica do futuro.
A artista Elza Soares cantou e continua cantando sua luta ideológica contra o racismo. A carne mais barata do mercado ainda é a carne negra e se James Baldwin alertou isso durante um período em que a “América” vivia um ódio explícito, é comovente que Raoul Peck consiga causar o mesmo impacto décadas depois por meio de um pensamento/devaneio do autor. O filme, assim como a ascensão de obras sobre o tema, alerta para o óbvio de modo emocionante: um sofrimento que nunca fez sentido e que ainda acontece na esquina.
Uma obra a se pensar e repensar; é uma angústia não sabermos por quantas décadas mais.

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