| The Founder (EUA) |
Ao fim do Oscar 2016, sugeri para uma matéria de expectativa do Oscar 2017 a presença de 'The Founder' (Fome de Poder, em tradução brasileira). O nome me surgiu por ser uma “cinebiografia” de um item pertinente à cultura estadunidense e, talvez principalmente, por trazer Michael Keaton como protagonista. Parte por esperança minha de que seu trabalho em ‘Birdman’ fosse realmente autobiográfico e que sua figura ressurgisse na crítica. Entretanto,‘Fome de Poder’ foi um dos filmes mais esquecidos da temporada de premiações. Ao finalmente assisti-lo, entendi de cara que a principal razão desse esquecimento é sua convencionalidade.
Diferente do que esperei, o roteiro de Robert D. Siegel não é sobre a origem do McDonald’s, mas sobre o processo burocrático que o tornou uma das franquias mais bem-sucedidas do ramo alimentício e posteriormente imobiliário. Para um leigo, assim como eu, esse fato é uma surpresa interessante. Apresentando-a em menos de cinco minutos, a obra começa com um clima ligeiramente envolvente; mas desanda com uma facilidade visível.
O personagem Ray Kroc fica atrapalhado em um Michael Keaton que, apesar de tudo, cumpre seu papel com uma modéstia considerável – seria frustrante se o filme lhe exigisse uma abordagem caricatural. Ainda assim, Ray não é nada mais que um vendedor “oportunista” feito aos moldes. Interessaria se a obra não desprezasse seus outros “núcleos”; a presença quase mesquinha de Laura Dern é um assombro sem igual. E não é uma má impressão por seu uso reduzido, mas pela forma como é tratada desde o início e principalmente como é descartada. O mesmo se manifesta em outros tantos personagens que tem suas nuances esmagadas pelo único interesse possível de destrinchar um protagonista técnico, inteligente e provavelmente insensível. Os próprios fundadores, irmãos McDonald’s, tem suas crises acanhadas; o roteiro ainda tenta criar uma emoção quando, somente próximo ao fim, resolve trazê-los de volta.
Quanto a sua imposição, é uma surpresa negativa que o filme não se preocupe com as contradições de Ray. Suas meias-palavras, acordos frouxos e o ego inflado se montam como teoria maquiavélica de ascensão – e isso é “excelente” como construção de sua personalidade. Mas o filme ignora emoções tangíveis de qualquer um que esteja além de Ray, transformando todo o entorno em um show artificial de dramatização e danificando seu principal interesse.
Em sua aparência despretensiosa lhe resta uma imersão curiosa aos bastidores corporativos. As principais soluções retiradas da experiência real e os motivos que ergueram o McDonald’s são instigantes. Suas fases funcionam separadas como uma fonte informativa. Se não fossem as nuances reduzidas em um ritmo imediato, seria uma história boa de acompanhar. Como foi concebido, entretanto, 'Fome de Poder' é somente uma história boa de saber.

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