Peter
Jackson, em sua refilmagem de 2005, apostou em um plano muito
sincero e que diferencia esse Kong dos anteriores. O take em questão é aquele
em que o macaco põe Ann Darrow dentro de um prédio através de uma janela, já
que o mesmo quer proteger a moça dos tiros dos aviões que os perseguem.
A alegoria já o diferencia do
original que, mesmo com todos os méritos incomparáveis da época, tinha uns
problemas de narrativa, e, é claro, de todos os outros que
transformaram o personagem em um monstro que rendia mais risos do que medo,
como o Filho do King Kong, King Kong Vs Godzilla e até mesmo a versão de 1976
com o Jeff Bridges. A cena no original, por exemplo, mostra o Kong sequestrando
a protagonista de um prédio, quase como se estivesse usando-a como escudo. Uma sequência aterrorizante, por sinal.
O roteiro, inspirado em criar
homenagens ao clássico, transforma toda a tragédia da criatura em poesia. Logo
no primeiro ato, os personagens são modificados em versões
menos preconceituosas e ofensivas, o que traz realidade ao contemporâneo. O
único que permanece corrompido é o personagem Carl Dehnam, mas aqui o vilão
precisa de traumas para sair de seu ponto A e encontrar o ponto B de vilania, a
qual o roteiro nos faz parar de torcer pelo personagem.
Do mesmo modo, Ann surge como
uma personagem muito mais inspirada do que totalmente influenciada por Fay Wray e seus diálogos bobos. Naomi Watts surge aqui com uma vontade
de se diferenciar da original, mesmo que as personagens sejam parecidas
visualmente. A dessemelhança, além dos diálogos e do conflito interno, também condiz com uma síndrome de Estocolmo muito bem-vinda ao
filme, enquanto as versões anteriores se concentraram em criar um horror e
pânico diante de Kong. O roteiro de Jackson, neste sentido, experimenta uma
aproximação muito íntima e extremamente convincente entre a vítima e o seu raptor. Isso exigiu, consequentemente, um esforço de Watts em causar mais
camadas ao personagem digital, assim como Andy
Serkis que atuou magistralmente com o seu herói computadorizado, o que
rendeu inúmeras sequências tocantes, como a dança sublime no lago de Central Park.
O roteiro, deste modo, introduz um drama paciente em seus primeiros 50 minutos de projeção, o que
traz a música intensa de James Newton
Howard, que cria uma sensação de perigo constante, mesmo quando os heróis
estão em paz. Com isto, os personagens rendem aparições e personificações
sinceras que causam raiva, medo e até pena por eles que se encontram a
bordo do navio Venture. Jack Black, por
exemplo, cômico, como sempre, surge em sua melhor atuação ao desenvolver
substâncias que fazem o espectador duvidar o tempo inteiro de sua integridade.
Quando, enfim, presenciamos o
caos que os heróis começam a passar na assustadora Ilha da Caveira, o
roteiro torna tudo mais caótico ao oferecer inúmeras sequências de aventura que
trazem toda a densidade necessária ao filme, e que ainda desenvolve todos presentes de maneira bastante competente, mesmo durante as cenas de batalha, como o duelo de Kong contra os três Tiranossauros, a qual Ann sai da posição de vítima e se torna companheira do símio.
E, por fim, os efeitos da sempre competente WETA conseguem transformar o ambiente em um cenário de terror em que todas as criaturas e suas ações são convincentes. O Kong, por exemplo, é perfeito, já que traz rugas, marcas e detalhes assustadores que convencem em poucos minutos o espectador de toda a sua grandiosidade.
King
Kong
de Jackson é um marco na indústria. O diretor conseguiu unir efeitos visuais com uma história competente que conseguiu melhorar vários conceitos
do original. Ann é uma mulher extremamente forte e Kong não é mais um vilão. A
mensagem foi dada com os elementos progressistas de Jackson. E com uma elegância
sem igual.

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