| Dobra Zena (Sérvia) |
Discutir assuntos profundos de modo diretamente grandioso é um caminho que tende a falhar pelo excesso. Partindo desse “medo” de se entregar a um drama de sentimento muito explícito, o sérvio ‘A Boa Esposa’ discute questões sociais com uma ambição que convence pela modéstia. E mesmo que essa escolha lhe imponha um ritmo frágil, a obra consegue trazer um contorno atraente. Afinal, o que se anuncia muito cedo como o principal conflito é uma questão mais presente impossível.
Hoje mesmo, refletindo sobre o filme, liguei a televisão e dei de cara com a morte de dezenas de civis em mais um episódio da guerra na Síria. É uma problemática mundial que envolve tantos fatores que seria impossível listar de modo unicamente contemporâneo. O que aparenta ser um recorte interessante para um drama de guerra psicológico, em ‘A Boa Esposa’, isso se constrói como um conflito que acontece no ideológico, na passividade de quem precisa reagir sem muitas opções reais.
Empregando o rotineiro papel de “mãe de família”, Millena (Mirjana Karanovic, também diretora) é envolta de uma solidão tímida. Custa ao roteiro endossar esse retraimento; até então, suas relações só acusam uma fragilidade instável diante a “normalidade”. O filho disperso que não a escuta, a filha que mora “longe”, o marido que, embora bondoso, não compartilha o motivo do seu estresse. Esse sentimento só é elevado quando a história se encurrala à obrigação da protagonista de, enfim, olhar para si. Então, o novo conflito se resume em lidar com duas verdades recém-descobertas: o choque sobre si e a crueldade que envolve o marido, Vlada.
Com a possibilidade do retorno de um tormento passado, Vlada (Boris Isakovic) assume a pose opressora de raiva se tornando ainda mais incomunicável. Nesse momento, uma disposição de personagens se torna muito clara com seus homens nunca acolhedores. Repare, por exemplo, que, em um momento pós-revelação do segundo conflito, até mesmo a compaixão de Vlada parece deturpada apesar de sincera. Enquanto as mulheres tampouco são amparadas; uma sofre pela desconfiança de traição, outra por não reconhecer o marido agressivo que voltou da guerra, outra por tentar lidar com seu companheiro inquieto com o passado. Milena sobra nessa lista com um sofrimento gradual; a poesia de como conheceu Vlada não parece mais válida com a informação que agora a angustia.
Ainda assim, é visível que o roteiro encontre poucos espaços para que essa teia de símbolos e discursos implícitos sejam desenvolvidos. A revelação da guerra ocorre pouco depois da abertura e entregar esse peso dramático à personagem somente próximo ao fim reduz o envolvimento. Por outro lado, ao unir isso à revelação que direciona um sofrimento diferente à Milena, a ideia se fortifica. É, ao menos, um último momento habilidoso ao criar um entrelaço emotivo.
Ao ter a consciência que esses temas acontecem em um plano de fundo, a obra de Karanovic entrega um olhar realista a essa rotina. Utilizando a mesma trilha para suscitar momentos de solidão, o filme consegue incitar pensamentos sobre família, guerra, impostura social, e outros subtemas que podem surgir ao subir dos créditos. Ao mesmo tempo que essas inquietações tardam a serem ditas, a empatia e o envolvimento para com a motivação da história também são elementos reduzidos. ‘A Boa Esposa’ é uma história que não busca muitas soluções, mas justifica seu questionamento.

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