Não há como duvidar da grande aceitação que ‘Get Out’ (no original) recebeu desde sua exibição no Festival de Sundance desse ano. Alcançando o índice de 99% no termômetro americano Rotten Tomatoes, o filme foi descrito como uma nova experiência do gênero e com uma ponta audaciosa brilhante. É verdade, o maior mérito do filme de Jordan Peele é encontrar a amargura ideal em um tema que costuma receber atenção. Visto por dentro e por fora dos moldes do suspense, ‘Corra’ é, especialmente, sobre o racismo enquanto contexto histórico.
Aos poucos, Peele acalma qualquer expectativa de inovação narrativa. Não é como foi o marketing de ‘A Bruxa’, por exemplo, que escancarou estarmos diante um novo tipo de terror. Longe disso, ‘Corra’ não quer ser diferente em sua superfície. A primeira sequência é vibrante, começando com uma angústia que faz lembrar ‘It Follows’, e que se personaliza logo em seguida. O ato ainda não compreendido possui uma percepção que já fala muito sobre opressão e impunidade, subtemas entrelaçados. E a cena seguinte já é mais "confortável".
O que difere a obra de muitas outras não é sua forma - essa que, na maior parte comum, abstrai em bons momentos. Não há muita produção recente que se preocupe com algo além de uma atmosfera temível, e filmes como esse estalam o público. Exatamente para que essa relação ocorra de forma direta, a tensão do filme não inventa a roda; Jump Scares estão presentes com uma maquiagem que não esconde a trilha exaltante. Peele não confia no poder de seu ambiente, julgando necessário reforça-lo sempre que possível. Mas em certo ponto, nada disso importa. O que ‘Corra’ tem de precioso é não somente ter um propósito, mas deixar claro que o filme serve a ele.
O grande mistério do filme, por exemplo, não é escondido. Já na transição entre os dois primeiros atos isso se desenha quase por completo. A situação que é percebida com desconfiança por Chris (Daniel Kaluuya em envoltura impressionante) passa a morar com o público muito antes. Isso é interessante para que o tema sóbrio da história possa ser pensado desde cedo, mas, quando tudo fica muito claro, surge um desprendimento diante o desenrolar que custa a chegar. Ao fim, fica a ânsia por algum elemento novo; Peele entende que isso é preciso para um bom desfecho e evoca algo que sequer se denuncia até o momento.
‘Corra’ funciona se visto como uma crítica ao racismo contemporâneo, falando de uma compreensão vinda da antiga sociedade branca (e aí podemos aderir rica, conservadora, elitista, etc.) que enxerga o negro como objeto estereotipado, um utensílio, e como o racismo pode se esconder nesse discurso. Mas o filme parece muito maior se visto como um pensamento sobre a formulação do racismo com a “adesão” do negro em uma sociedade ainda tão preconceituosa ao ponto de confundi-lo. No Brasil, por exemplo, como a alforria negra libertou escravos em um país que ainda não queria recebê-los livres. O negro lançado à margem como se estivesse liberto, forçado a querer ser branco. O principal tema de 'Corra' é esse lento massacre de uma soberania branca que não legitimava qualquer referência dessa “cultura de escanteio”. O requisito dessa classe escravocrata para conviver com os negros era que ao menos se comportassem como brancos. Até parece que o filme foi feito para o refrão da canção “Identidade”, de Jorge Aragão (escute, mas cuidado com os spoilers que são bem diretos).
O principal destaque de ‘Corra’, mesmo que se engrandeça pelo passado, é sua contemporaneidade. É como um alerta, um estalo, como já me referi anteriormente, e nem por isso precisa de um discurso combatente; o filme não é denso para ser um manifesto. É, acima de tudo, a diversão de quem quer contar algo sério se atendo ao que concerne ao terror em sua concepção genérica. Ou seja, uma experiência imperdível.

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