Obs: o texto contém spoilers de 'Guardiões da Galaxia Vol. 1 e 2', de James Gunn
Há um momento muito peculiar nesse volume 2 dos Guardiões que traduz de modo muito cômico o porquê de suas aventuras serem tão interessantes: a cena em que o inflado Taserface manda um recado por Ayesha para que seu nome 'intimidante' seja lembrado ao inimigo. O nome cafona, como o roteiro já havia dito antes, causa um efeito cômico nos personagens. Mas, naquele momento específico, a tensão da cena nos faz esquecer disso. Já estamos convencidos que ele assumiu essa loucura e sua ouvinte parece robusta demais para expressar qualquer reação. Ayesha, porém, segura o riso até não conseguir mais prendê-lo; a trilha alta pausa para ouvirmos sua risada atrapalhada pelos lábios. Em seguida, enquanto a plateia ainda ri copiosamente, a trilha volta e a ação é retomada no exato ponto em que parou. Ninguém se recuperou ainda.
É fácil perceber que não há qualquer verossimilhança nessa cena. A banalização de guerras vem sendo administrada pelo universo de heróis há muito tempo e a Marvel segue como líder. Por que diabos Ayesha iria achar aquele nome engraçado em um momento de tensão? No final do volume 1, Peter dança para distrair o grandioso Ronan que, por algum motivo, deixa claro que entender o que ele está fazendo é imensamente mais importante do que concluir seu objetivo de destruir a todos. Cenas como essa que viriam a ser rotineiras na saga dos Guardiões, porém, são muito mais sinceras do que suas críticas.
Mais que qualquer outra coisa da Marvel Studios, ‘Guardiões’ trata seu humor com um rigor desconcertante. O pai dessa consciência é James Gunn, o comandante que quando menos se espera baixa as velas e entorta o timão. E esse humor está mais diretamente ligado a ele (compreenda por isso toda a equipe responsável), do que propriamente aos personagens; o volume 2 da saga deixa tudo isso ainda mais claro. Não é um roteiro engraçado por seus personagens; são pouquíssimas as tiradas do Draxx que, quando não entediantes, funcionam. As do Rocky não são tão originais quanto ao primeiro. O humor de ‘Guardiões’ é Gunn, que manipula a forma de seu filme com um domínio interessante.
A sacada da abertura é genial: música excitante, batalha desfocada enquanto o inocente Baby Groot dança. Ao longo do filme, especialmente nas cenas de ação, o filme escancara uma energia humorada que está na edição; o uso do corte e das transições para quebrar expectativas e entregar uma nova reação no mesmo timing. A trama desse volume me parece ainda mais frágil que a do primeiro, e ser fiel às suas regras poderia ser o caminho para uma obra maçante (algo como Batman vs Superman). Para fugir disso, a história faz concessões ao próprio humor que, a essa altura, já foi personalizado. Continua não fazendo o menor sentido Ayesha rir de 'Taserface', mas a gente ri do outro lado da aventura.
É uma brincadeira que não liga para a inconsequência, que não está nem aí para piadas erradas (como disse Gabriel Amora na sua crítica). É um filme de galáxia que não quer ser ‘Star Wars’ ou ‘Star Trek’, um filme de equipe que não quer ser ‘Vingadores’, um filme de comédia que não quer ser ‘Deadpool’.
‘Guardiões da Galáxia’ quer ser a piada que James Gunn reinventou.
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