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Z - A Cidade Perdida (2017) | O Calcanhar de Aquiles encontrado na família

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The Lost City of Z (EUA)
A sétima arte, ainda como um modo de expressar sentimentos, angústias e felicitações, tem a rotineira forma cíclica de identificar e desenvolver dores do mundo real. Dito isto, não há nenhum filme de James Gray que não flerte com o descaso e dor, uma vez que Amantes fale de amor na contemporaneidade e Era uma vez em Nova York trate da fantasia do sonho americano durante o século XX. Com Z: A Cidade Perdida, Gray emula a aventura ao desconhecido, como outrora foi muito comum em Hollywood. 


O material base para o diretor foi o livro de David Grann sobre o militar Percy Fawcett, que foi cartografar os limites inexplorados da Amazônia entre a Bolívia e o Brasil, e que ficou obcecado com uma possível descoberta que, para a sua vitória, mudaria o mundo. A sua cidade fantasma, batizada de Zed, possuía uma civilização mítica no centro da floresta desconhecida, logo quando o mundo beirava à Primeira Guerra Mundial.

Dito isto, Gray aplica em seu épico a compreensão de todos os elementos narrativos e estéticos na arte de fazer arte. Passeando pela música clássica de Charles Dutoit e composição de Christopher Spelman, do mesmo modo coerente pela cinematografia de Darius Khondji até a montagem de John Axelrad e Lee Haugen, o diretor faz um movimento muito pensado nos primeiros anos da Nova Hollywood, quando a construção de ambientação e universo se desenvolviam como composições artísticas muito bem aceitas ao contexto histórico e da obra.

Gray, em seu sexto longa-metragem, desenvolve o seu trabalho mais gigantesco. A concepção de 1905 reside em um imaginário que retrata um exercício de cinéfilia, como tantos outros fazem, em uma viagem onírica que fundou a essência do cinema moderno. Ainda que, com a sua grandiosidade, Gray crie a dor para falar de descobertas internas e de família, como sempre fez.

Deste modo, o diretor filma, como David Lean ou King Vidor, os movimentos dos personagens que, com a falta de amor pela família, procura na solidão a magnificência. Gray se aperfeiçoou, como se não fosse mais possível, no deslocamento do personagem diante de seus parceiros, seja através de quadros na parede ou de abandonos constantes. Z, com isto, se desenvolve com abordagem técnica, quase como as de Merian Cooper, uma cobertura familiar, já muito bem retratada em suas outras obras. 

Com a dimensão doméstica ao redor de Percy, o roteiro constrói uma narrativa calma e paciente até confirmar, através da atuação de Charlie Hunnam, a predestinação ao encontrar o legado de encantamento. Isto se dá quando o personagem escuta que seu pai era um jogador bêbado que afundou o nome dos Fawcett, o que remete à tragédia e vergonha íntima que, ao tentar provar que é capaz, envergonha os entes queridos do mesmo modo, uma vez que troca a bebida pela obsessão.

Hunnam, neste sentido, progride em sua melhor atuação, dado que foi preciso guiar o filme pela identificação e ambições com o público. O sentimento, por outro lado, glorifica o personagem quando está na selva, do mesmo modo que o desmerece quando está em casa, como na sequência com o seu filho, interpretado por Tom Holland

A obra ainda encontra espaço para criar um arco feminino tão forte, quanto o de Isabella Rossellini em Amantes que, com o desprezo, encontrou forças para segurar o nome da família, enquanto o outro desdenha em busca do descobrimento pessoal. Sienna Miller, no papel de Nina, esposa de Percy, constrói outra amálgama de tragédias e de levantar (sozinha) a determinação de viver no mundo dos homens e, pior, sem ser recompensada. 

Nota-se, com os quadros nas paredes (recurso muito usado pelo diretor), a essência do patriarcado em julgar fortemente a personagem de Sienna, como, por exemplo, na sequência da descida da escada em direção à saída, com vários homens, inquietos, analisando a sua derrota.

Tamanho esmero desenvolve o personagem central de Hunnam como um homem que teve inúmeras oportunidades de reescrever os Fawccet, mas que não se contentou com o que tinha em casa: uma família independente e uma mulher transgressora. O crescimento, infelizmente, não criou impacto no mesmo, quando se despede quase sem emoção da esposa e com insistência de seu parceiro de expedições. 

A vida e a sétima arte, deste modo, andam juntas e criam empatias mútuas, principalmente quando são inspiradas em fatos. Percy queria, além de grandeza, ser um dos quadros emoldurados nas inúmeras paredes de Gray. Com o foco de deixar a angústia e derrota de lado, o herói encontrou, em uma glória selvagem, a sua essência familiar. O diretor trouxe, enfim, a sua verdade à tona.

Crítica: Z - A Cidade Perdida (2017)

O Calcanhar de Aquiles encontrado na família 

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