O objetivo mais aparente de ‘Okja’ (polêmico lançamento da Netflix dirigido pelo sul-coreano Bong Joon-Ho) é contar uma história de amor. A superporca Okja, embora produto desenvolvido pelo mecanismo do capital, possui sentimentos que nenhum cachorro de estimação é capaz de ter. Para que essa história faça seu sentido emocional, Okja é quase um humano, capaz de matematizar soluções para salvar quem ama e de ter uma noção do mundo mais abrangente que qualquer outro animal na Terra. Essa aventura dualiza, porém, com a vontade de criticar o sistema responsável por Okja: a indústria alimentícia.
É claro, portanto, que a obra possua uma personalidade óbvia diante tantas plateias ao redor do mundo; situação incitada pelo lançamento que ocorreu de modo surpreendentemente simultâneo. Era meia noite na Coréia do Sul, 8 da manhã na Califórnia, quando estreou meio-dia em ponto na plataforma brasileira. Essa universalidade permite que o filme tenha essa cara unicamente crítica a compreensão financeira da carne. Mas Okja fala muito mais das peças em jogo que de suas regras. Tendo uma percepção muito reduzida da realidade (e aí se aproveita para ser burlesco), o roteiro assinado por Jon Ronson e pelo próprio Bong Joon-Ho justifica a existência de cada personagem como um alicerce dessa discussão. ‘Okja’, por fim, não fala algo além do óbvio sobre os vilões projetados na figura da indústria globalizada, mas fala principalmente do vilão social. Lucy, Nancy, Mija e Johnny são os lados dessa história.
Lucy e Mija são os opostos dessa percepção, porém não em antagonismo direto. Lucy, vivida pela enigmática Tilda Swinton, é a imagem gerencial da grande empresa responsável pelos superporcos; mas o mundo por seu olhar são somente teorias, animações, gráficos, resultados e mídia. Não passa por sua cabeça como o processo acontece de forma usual, e sequer a interessa – não é falsidade quando esboça compaixão por Mija e Okja que foram “maltratadas” diante as câmeras por policiais sul-coreanos. Sequer foi irônica quando dualiza a fofura dos animais com a necessidade de serem “gostosos pra caralho”; tudo faz parte do sistema como ele é.
Lucy representa, ainda que de modo brusco, toda a parcela da humanidade que se alimenta de carne vinda dos engenhos frigoríficos. O sofrimento não é um desejo conscientemente sanguinário; não comemos carne pensando em como foi bom ter matado aqueles animais – fazemos ideia, mas “não sabemos” e é sempre mais conivente compreender o processo como natural, assim como Lucy. Personagem que compreende como um ato heroico e quase humanitário liderar um programa que tem como principal interesse alimentar as pessoas. A maldade em sua essência consciente não está em Lucy, mas no entorno que se inseriu – por isso Nancy precisa surgir como a vilã cruel de óculos escuros e de afrontamento imbatível. Representando unicamente a esfera do poder financeiro, não há espaço para as sensações que a compreensão social proporciona. Nada mais sugestivo do que o dinheiro que “indiscutivelmente” vale mais que o amor.
Lucy representa, ainda que de modo brusco, toda a parcela da humanidade que se alimenta de carne vinda dos engenhos frigoríficos. O sofrimento não é um desejo conscientemente sanguinário; não comemos carne pensando em como foi bom ter matado aqueles animais – fazemos ideia, mas “não sabemos” e é sempre mais conivente compreender o processo como natural, assim como Lucy. Personagem que compreende como um ato heroico e quase humanitário liderar um programa que tem como principal interesse alimentar as pessoas. A maldade em sua essência consciente não está em Lucy, mas no entorno que se inseriu – por isso Nancy precisa surgir como a vilã cruel de óculos escuros e de afrontamento imbatível. Representando unicamente a esfera do poder financeiro, não há espaço para as sensações que a compreensão social proporciona. Nada mais sugestivo do que o dinheiro que “indiscutivelmente” vale mais que o amor.
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| Tilda Swinton como Lucy Mirando (Foto: Kimberly French) |
Do outro lado, é importante que a personagem da Mija seja uma criança. Ela não está inserida na luta vendida de combater o “massacre” animal; aplicar essa ingenuidade valida o conflito que só possui como motivador seu vínculo emocional. E conhecemos o apelo do amor no cinema; não há limite de enfrentamento quando é preciso salvar alguém que lhe divide a alma. Se escolher quem salvar, a mãe vai sempre escolher o filho – é essa intransigência compreensível diante a realidade que constrói envolvimento. Mija representa as pessoas que, embora conscientes da situação, não adotam ícones de revolução.
A minha vizinha vegetariana que se solidariza com a causa de defesa dos animais, contenta-se com a racionalidade interna que lhe diz respeito; não se alimenta de carne e não obriga ninguém a essa compreensão. E não há nada de equivocado nisso. Tendo essa justificativa como líder da trama, ‘Okja’ não pensa em mudar o mundo. Tornando, portanto, a aventura mais crível – não seria verossímil incumbir sua protagonista desse moralismo em tão pouco tempo.
A minha vizinha vegetariana que se solidariza com a causa de defesa dos animais, contenta-se com a racionalidade interna que lhe diz respeito; não se alimenta de carne e não obriga ninguém a essa compreensão. E não há nada de equivocado nisso. Tendo essa justificativa como líder da trama, ‘Okja’ não pensa em mudar o mundo. Tornando, portanto, a aventura mais crível – não seria verossímil incumbir sua protagonista desse moralismo em tão pouco tempo.
Quanto à existência oculta de uma liderança do poder, o personagem Johnny Wilcox vivido por Jake Gyllenhall é todo o processo de midiatização evocado na comunicação direta com o consumidor que precisa consumir mais que a oferta – no seu caso, também o sentimento. Lucy romantiza o benefício financeiro e Jake o envolvimento emocional. Alusivo que, por ser representante da mídia, o personagem seja o responsável por expor a manipulação emocional.
Quando vê o ídolo pela primeira vez, Mija não fazia ideia que ele seria o responsável por levar Okja e maltratá-la, encaixando-o rapidamente na figura global de sucesso. Wilcox, nesse sentido, é o principal personagem que representa uma esfera aquém da sociedade. Aliás, exatamente por ser construído por demanda industrial que a encarnação de Jake tem essa caricatura perturbadora que dispensa relação direta com qualquer núcleo devidamente humano da história.
Quando vê o ídolo pela primeira vez, Mija não fazia ideia que ele seria o responsável por levar Okja e maltratá-la, encaixando-o rapidamente na figura global de sucesso. Wilcox, nesse sentido, é o principal personagem que representa uma esfera aquém da sociedade. Aliás, exatamente por ser construído por demanda industrial que a encarnação de Jake tem essa caricatura perturbadora que dispensa relação direta com qualquer núcleo devidamente humano da história.
A funcionalidade rasa do grupo AFL empalidece o que representa, mas é competente que a discussão simbólica foque na pacificidade quase como alívio cômico (rendendo cenas muito bonitas, como a dos guarda-chuvas). Repetindo continuamente que suas lutas e os transtornos causados são benéficos, a existência do grupo, porém, passa a se tornar duvidosamente heroica. Um dos personagens, além de não se alimentar de carne, recusa-se também de todo vegetal originado das indústrias Agro – permanece durante todo o filme com o aspecto macilento de fome. Então ‘Okja’ é uma crítica generalizada sobre todo o processo alimentício? Difícil ser tudo isso, hein? Mas, afinal, diferente da resposta instantânea que veio do público, esse não é um filme pensado como arma de defesa ao veganismo. Nossa protagonista não é vegetariana; começa e conclui seu arco caçando peixes e comendo seu ensopado de frango. Isso porque o filme compreende as distinções entre sua produção subsistente e a megalomania imprudente da produção em massa – a linha que divide essas necessidades é a única real inquietação consistente a ser discutida.
E exatamente por não refletir qualquer solução para o grande problema, é que ‘Okja’ se torna mais tangível, afinal, não é possível que ainda possamos nos espantar com as mareações do mercado. Somente quando a Netflix cancelou ‘Sense8’, as pessoas resolveram sacar que a razão pela série ter sido produzida não foi precisamente por qualquer compromisso social de compartilhar a representatividade sexual; é majoritariamente financeiro.
As pautas LGBT’s emergiram nos últimos anos e, de repente, tornou-se um tema a se investir. Como, por exemplo, empresas de cerveja historicamente machistas passarem a se redimir com campanhas representativas. Aliás, vocês viram as latinhas da Skol que representam os tons de pele? Ou a campanha da Coca-Cola fazendo alusão a homo/transexualidade? Mas não é por ser onda da produção mercadológica que esses investimentos são os únicos “vilões”, e “Okja” reconhece mais ou menos isso.
As pautas LGBT’s emergiram nos últimos anos e, de repente, tornou-se um tema a se investir. Como, por exemplo, empresas de cerveja historicamente machistas passarem a se redimir com campanhas representativas. Aliás, vocês viram as latinhas da Skol que representam os tons de pele? Ou a campanha da Coca-Cola fazendo alusão a homo/transexualidade? Mas não é por ser onda da produção mercadológica que esses investimentos são os únicos “vilões”, e “Okja” reconhece mais ou menos isso.
Acaba que o principal efeito do filme é apresentar essa cartela de indagações sem precisar passar disso. É brevemente óbvio, mas os contornos lúdicos e principalmente emocionais transformam essa aventura frenética em um projeto de planejamento e execução ousados – deixando de lado as convenções inverossímeis, ‘Okja’ é um filme de presença importante. Se maleável como história contínua, brilhante como incitador de uma reflexão sobre um mundo que temos a falha consciência de fazer parte.
OKJA: A Indústria e o "Vilão Social"
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