Em 1997, o escritor Dav Pilkey lançava ao mundo As Aventuras do Capitão Cueca, série infantil de livros que ganhara uma legião de fãs com seu humor irreverente e personagens um tanto quanto caricatos. Devido ao seu grande apreço pelas características originais da obra, Pilkey demorou para vendê-la aos grandes estúdios de cinema, sendo a DreamWorks Animation Studios (após longa insistência) a única e atual detentora dos direitos de adaptação.
Eis que, vinte anos depois do primeiro voo do Capitão, suas aventuras aterrissam na tela grande (ainda que, em terras brasileiras, o filme tenha sofrido um delay de quatro meses do lançamento original — enquanto, lá fora, a bilheteria comemorava o período de férias, aqui ele foi destinado ao feriado de Dia das Crianças). Sob a direção de David Soren (do fraco Turbo), o longa-metragem diverte de forma despretensiosa, mas permanece fruto de um período de crise do estúdio.
Na trama, o público novato é apresentado aos “melhores amigos para sempre” George (voz original de Kevin Hart) e Harold (voz original de Thomas Middleditch); especialistas em pregar peças na escola, ambos divertem-se criando histórias em quadrinhos (enquanto um tem aptidão para elaborar roteiros, o outro ilustra). A criação favorita de ambos, “Capitão Cueca”, satiriza o rigoroso diretor da escola, Sr. Krupp (voz original de Ed Helms), que ameaça separá-los de turma. Eis que, após uma situação envolvendo hipnose, o diretor passa a agir como o desastrado Capitão, envolvendo os dois em uma série de confusões.
Crítica: As Aventuras do Capitão Cueca: O Filme (2017)
Personagens divertem, mas animação não se destaca
Embora não se afaste da estrutura cliché de “Alunos vs Diretor da Escola”, que é cerne do conteúdo original, a animação traz pequenos relâmpagos de inovação em seu humor, encontrando seus melhores momentos em sequências que mesclam diferentes técnicas de vídeo e animação — herança, talvez, de alguns seriados televisivos infantis que flertam com o experimental para criar comicidade. Entretanto, este aspecto (infelizmente) não chega a caracterizar a produção, que inclusive brinca com o nível baixo de suas piadas e o desperdício de seu próprio potencial.
Apesar de apostar bastante na irreverência, o longa-metragem consegue entregar algumas mensagens positivas além de sua máxima sobre amizade (que permeia a obra toda); são apresentados, ainda que de forma ofuscada, temas relacionados à repressão, disciplina, liberdade e criatividade — este último evidenciado em uma sequência inteira sobre a importância do departamento de artes no ensino escolar.
Tecnicamente, a animação de As Aventuras do Capitão Cueca: o Filme é neutra e não parece em nada com outros títulos da DreamWorks Animation. Seguindo uma estética flat para transpor personagens cartoonizados para o 3D, o visual é bastante semelhante ao de Snoopy & Charlie Brown: Peanuts, O Filme (2015); porém, não carrega o êxito e a inovação deste segundo, lançado pela Blue Sky Studios (um estúdio que, embora tenha filmes de qualidade no currículo, é menos influente que o pai de Shrek, 2001).
Entregando mais uma produção mediana, esta divisão da Dreamworks demonstra estar vivenciando uma “crise de identidade”, visto que o último lançamento de cinema realmente relevante nos últimos dois anos foi Trolls (2016). Após muitos anos sob distribuição da Paramount Pictures e encerrando, com “Capitão Cueca”, sua parceria com a 20th Century Fox, iniciada em 2013, o estúdio segue agora para uma nova fase, sob posse da Universal Studios e seus espalhafatosos Minions. Se ele resgatará o nível ótimo de seus filmes ou permanecerá construindo diversões efêmeras, como esta última empreitada, só o futuro dirá.


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