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Dona Flor e Seus Dois Maridos (2017) | O cinema literal

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Adaptar uma obra com mais de 50 anos é um grande desafio para todos os envolvidos no projeto do filme. É indiscutível a genialidade do autor que faz sua história se renovar por tantos tempo. Após 40 anos desde a última adaptação às telonas, Pedro Vasconcelos dirige e roteiriza a sua leitura de Dona Flor e Seus Dois Maridos para os cinemas. De fato, uma leitura – quase literal. 

O diretor já tem intimidade com o livro. Trabalhou com ele nos teatros por muito tempo, se sentindo bastante à vontade para fazer o mesmo no cinema. O resultado disso é que o filme todo tem uma direção teatral, desde a escolha dos planos, em ambientes limitados, até a condução dos atores. Os diálogos, que pareciam ser cópia das páginas do livro, não ficam naturais como deveriam. O uso da narração em momentos pontuais da trama poderia ser substituído por desenvolvimento de personagem de forma mais sutil. 

O grande trunfo de Dona Flor e Seus Dois Maridos é o elenco, o qual conseguiu compreender o subjetivo de cada personagem para retratá-lo da melhor maneira, não se reduzindo apenas ao roteiro mal adaptado. Dona Flor (Juliana Paes) e Vadinho (Marcelo Faria) possuem uma química excelente, não somente nas cenas eróticas, mas também nos conflitos do casal. Com a dupla roubando todas as cenas, Leandro Hassum, que deu cara ao boticário Teodoro, ficou ofuscado e deixado de escanteio na trama e na construção de planos, sempre no canto da tela, aparições rápidas e sem graça alguma. 

Ainda assim, por esse filme estar sendo lançado em uma época com pensamentos diferentes do que de décadas atrás, este se sentiu livre para tocar de forma sutil em assuntos como a libido feminina e a liberdade que a mulher possui de sentir prazer – muito o que Jorge Amado quis trazer ao criar sua obra literária.

Contudo, a ausência de um roteiro adaptado deixa evidente alguns problemas de execução que existem no longa, que fica preso às páginas escritas e não possui um clima definido. Ora comédia, ora drama, ora romance e alguns momentos de quase terror deixa o filme numa confusão de identidade, sem deixar claro a pretensão dos criadores. Menos, é mais. 

A obra Dona Flor e Seus Dois Maridos tem muito que ser explorado, devido à profundidade dada aos personagens. Porém, apesar de um filme para entreter aqueles que gostam da história, poderia se utilizar de fato do termo adaptação para trabalhar pontos de vistas mais densos da obra. É irônico dizer que em um filme, faltou mais cinema para uma trama com grande potencial. 

Crítica: Dona Flor e Seus Dois Maridos (2017)

O cinema literal

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