
“Nós ainda temos direitos sob o personagem… que tal fazer
um filme em live action?”. Provavelmente foi com pensamento semelhante
que os executivos da Universal Studios decidiram prosseguir com “Pica-Pau” (2017),
longa-metragem que resgata o famoso personagem televisivo — há tempos sob as
garras da gigante do entretenimento —, desta vez com um apelo diferente e mais
adequado ao público infantil moderno.
A decisão segue uma tendência explorada
anteriormente em filmes como “Zé Colmeia” (2010), da Warner,
e “Os Smurfs” (2011), da Sony Pictures, o que acaba por não
surpreender de forma alguma; a sensação que o filme deixa, no entanto, é de que
não deveria ter deixado a sala de edição, de tão imaturo (apesar da idade do
público-alvo) que encontra-se em diversos aspectos.
A empreitada de “Pica-Pau” ignora todo o
universo já existente do personagem, deixando de lado personagens e piadas de
sucesso, que poderiam ter sido explorados muito bem, para investir no clichê do
advogado antipático e ganancioso (aqui nomeado Lance Walters e interpretado
pelo veterano Timothy Omundson, do seriado “Psych”) que
decide construir uma casa na floresta, especificamente em uma região habitada
pelo ardiloso personagem-título.
Como se já não soasse muito familiar, ainda há
um drama forçado de relação pai-filho, que Lance divide com o filho
pré-adolescente Tommy (Graham Verchere, atualmente visto no
seriado “The Good Doctor”), e personagens caricatos, como a noiva
mimada de Timothy, Vanessa, interpretada pela atriz brasileira Thaila
Ayala em uma performance de overacting que estende-se
por todas as suas aparições.
Conhecendo a proposta do filme ou os trabalhos anteriores
do diretor Alex Zamm, que possui grande experiência em filmes
televisivos e direct-to-video voltados para a família,
como “Inspetor Bugiganga 2” (2003) ou “Perdido Pra
Cachorro 2” (2011), já espera-se uma produção a nível desta. No
entanto, é importante salientar que o orçamento e a linguagem de filmes do tipo
são bastante inferiores a algo previsto para lançamento nos cinemas, e quando
algo do tipo chega de fato às telonas, nos deparamos com um filme realizado de
forma preguiçosa e que certamente não vale o preço alto dos ingressos.
Muito em “Pica-Pau” caberia em um
produto de televisão, como as situações de clichês e os personagens rasos. Mas
as piadas sem graça (que recorrem muito ao escatológico) comprometem a
atratividade do filme nos cinemas, que não deve divertir nem as crianças. A
dublagem sabe tanto disso que recorre ao uso de memes para entregar algo pelo
menos irônico ao público, como quando o filho do protagonista exclama um “Morta!”.
Ainda quanto ao humor, o único fator presente no
longa-metragem que remete à herança do personagem é apresentado em forma de
arco cômico: trata-se da cena em que Pica-Pau incomoda o homem protagonista
todas as vezes em que ele tenta dormir, evocando a situação que levou à criação
do personagem por Walter Lantz e Ben Hardaway. Da
primeira vez em que isto ocorre é até fofo, mas depois torna-se algo
excessivamente repetitivo.
Crítica: Pica-Pau (2017)
O pássaro expiatório da indústria
O carisma do personagem e outras de suas características
são inevitavelmente comprometidas pela computação gráfica terrível. Aliás, o
filme é tão pobre tecnicamente, com efeitos visuais ruins e cortes acelerados,
que a impressão é de que está inacabado. Novamente, algo “aceitável” para um
produto de televisão, mas decepcionante quando trata-se do mercado
cinematográfico.
"Pica-Pau” (2017) esconde-se atrás do status de “filme infantil” para subestimar seu próprio público, mesmo quando algumas produções do gênero tentam atrair e agradar uma plateia cada vez mais exigente. O assassinato de um personagem clássico à custa de lucro, que só denuncia o desinteresse latente da indústria por quem de fato a consome.

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