
A insegurança do primeiro beijo ou da primeira transa, a escolha de um curso de graduação aos 17 anos, o casamento com alguém que julgamos (e esperamos) ser a pessoa perfeita para nós: muitos dos grandes passos obrigatórios – pelo menos socialmente – da nossa vida são envoltos pela dúvida de estarmos ou não tomando a decisão correta. E não é esse um dos charmes pós-modernos que torna a nossa permanência na Terra uma experiência minimamente interessante?
Pois Hang the DJ, quarto episódio da quarta temporada de Black Mirror, série britânica distribuída pela Netflix, entende essas nuances e as embaralha para causar no espectador a inquietação que não imaginaríamos que as certezas absolutas e matemáticas poderiam gerar. No enredo, um sistema de computador é o responsável por arranjar os pares românticos de uma sociedade, até que se chegue a um companheiro ideal; tal lógica é questionada por Amy (Georgina Campbell) e Frank (Joe Cole), insatisfeitos com a pré-determinação.
O diálogo com o mundo real, característica quase sempre presente nos episódios da série antológica, não é de difícil percepção, uma vez que aplicativos de encontros já fazem parte do nosso dia a dia. A extrapolação dessa ideia (também marca do seriado e justamente a causa de constantes angústias) está no fato de que, enquanto podemos decidir nos relacionar ou não com quem o aplicativo sugere, o sistema fictício pressupõe obrigatoriedade.
A ansiedade causada pelo capítulo provém ainda do fato de que a sociedade na qual Amy e Frank vivem é sempre um enigma: poucas respostas são dadas de início e sequer entendemos o motivo de aquelas pessoas estarem submetidas a tal sistema. E isso jamais é um defeito, visto que os nossos próprios questionamentos acompanham àqueles dos protagonistas, os únicos personagens abertamente incontentes com o sistema e nossos guias naquela estranha comunidade.
Ironicamente, o programa matemático responsável pelo cálculo de parceiros ideais também nos ajuda a entender a própria fragilidade dos relacionamentos humanos. É interessante perceber como o episódio sugere que a data de expiração de cada relacionamento passageiro está diretamente relacionada ao modo como nos comportamos durante o tempo em que estamos juntos, e não como uma imposição quase divina ou do destino: afinal, do lado de cá, não podemos nós mesmos decidir, pelas nossas ações, quem é nosso par ideal?
Crítica: Black Mirror - 4x04: Hang the DJ (2017)
O valor das incertezas
Em um mundo de efemeridades, exorbitado pelo capítulo, não é surreal imaginar que “amores” possam ser escolhidos por um aplicativo, indo de relações sexuais de uma noite a convívios de anos inteiros. A casualidade disso se apresenta ainda pelo fato de que o mundo de Amy e Frank, como imaginado pelo trabalho de direção e fotografia, parece nunca ter cores vibrantes e todos os alojamentos para os casais são praticamente iguais uns aos outros, contribuindo para o ar de compulsoriedade do sistema.
Se forem permitidas comparações, Hang the DJ faz, na quarta temporada de Black Mirror, um papel similar àquele de San Junipero na temporada anterior, no sentido de fugir da habitual violência mental quase explícita dos outros episódios, ainda que o desassossego aqui seja essencial à trama. O tom da resolução do enredo, porém, depende de perspectivas pessoais: há quem possa ver um final feliz, há quem veja um fechamento ainda angustiante. Opto pela segunda opção.

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