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Me Chame Pelo Seu Nome (2018) | Sutilmente fantástico

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A grande particularidade que os romances de verão carregam consigo é a sua finitude. Por isso, quando se trata de uma história assim, já podemos imaginar o seu fim, com a separação do casal. Me Chame Pelo Seu Nome, porém, se utiliza disso a seu favor. Transformando a então previsibilidade em criação de expectativa, entregando algo mais intenso que um simples amor de verão.  

Como uma adaptação do livro do mesmo título do autor André Aciman, e roteirizado por James Ivory, Me Chame Pelo Seu Nome ganhou a afeição do público pela sutileza e a sensibilidade que constrói o seu romance homossexual, sem cair nas armadilhas dos clichês que o tema possui. Luca Guadagnino traduz as páginas com uma direção inicialmente tímida, câmera nos cantos dos aposentos, e que acompanhando a aproximação do casal, conquista seu espaço e apresenta aquele amor de forma natural e sensível, sem forçar nada contra o público.

As belíssimas locações, bem como a ambientação do início dos anos 80, funciona como um pano de fundo para toda essa naturalidade exprimida pela direção. As cores vibrantes, alegres e saturadas transmitem a vivacidade daquele momento e daqueles personagens. Todos os banhos, as festas, os cafés da manhã e almoços reforçam o sentimento de caloroso que o verão traz. E para exibir isso da forma mais exímia, Timothée Chalamet, como o menino Elio, supre todas expectativas e entrega uma excelente performance. Toda sua expressão corporal consente com o imaginário do personagem, uma vez que nada é deveras explícito. 

Em um romance construído com olhares, toques e entrelinhas, um ator tão jovem transmitir os sentimentos de descoberta – e até confusão – de forma receptiva e vigorosa, faz seu talento saltar à tela. Sua presença jamais se torna exaustiva e, com um carisma único, seu trabalho abre portas para um público que deseja fazer parte daquilo também. Timothée entrega um Elio com muitas camadas. Interpretar um adolescente em seu descobrimento sexual, de forma que rompe barreiras do clichê e se faz no subjetivo, garante a mais primorosa vantagem: identificação.

Seja com o romance de verão ou com os personagens, ser arrebatado pelo drama e pelo amor vivenciado por Elio e Oliver (Armie Hamer) não é difícil. Mesmo com uma clara diferença de idade, os dois entram numa sintonia única, como se, antes mesmo de Oliver perpetuar isso na sua frase que explica o título da obra, eles fossem um só. Os sentimentos que este verão de 1983 trouxe são embalados por uma linda composição de Sufjan Stevens em uma trilha sonora singela, mas que respeita e dialoga com todo contexto do filme.

Contudo, algumas sequências repetidas, como os encontros com os amigos, ou as idas à cidade, deixam o filme com uma duração que poderia ser menor. O primeiro ato inteiro é dedicado apenas à introdução, postergando o que seria o desenvolvimento dos personagens para uma ação, que só acontece depois de muitos minutos de projeção. Mas quando Me Chame Pelo Seu Nome encontra seu ritmo, tudo flui e a sensação que os personagens sentem de não querer que o verão acabe é imediatamente compreendida.  

Me Chame Pelo Seu Nome é um filme que diz sem falar. A experiência que é construída se prova como uma harmonia perfeita de todos recursos cinematográficos. E mesmo em sua sequência final, com câmera parada, pequena profundidade de campo, sem diálogos, apresenta mais do que palavras seriam capaz de externar. É poesia em tela.

Romances de verão têm sim um fim. Mas o que os diferenciam dos demais romances é que estes não conseguem ser esquecidos. Me Chame Pelo Seu Nome retrata isso com uma sensibilidade única, com execução digna e madura. Este filme, assim como os romances de verão, não será esquecido. 

Crítica:  Me Chame Pelo Seu Nome (2018)

Sutilmente fantástico

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