O iminente fim da neutralidade da rede nos Estados Unidos reafirma uma ideia: mesmo com relação à Internet, muitas vezes sinônimo de liberdade, não estamos realmente no controle. A recente proposta da administração de Donald Trump, com possíveis efeitos para o mundo inteiro, é um exemplo de que toda a nossa vida em sociedade pode ser percebida como um show de marionetes, cujos maiores ventríloquos estão sempre ocultos.
Mr. Robot (2015-), série criada por Sam Esmail e exibida pelo canal USA, sabe dessa problemática e a usa como cerne de sua terceira temporada, encerrada em dezembro deste ano. Em um mundo no qual a prática de lobby é o modus operandi de toda a política global, seja ela pertencente a qualquer espectro, é natural que a obra entenda a insignificância de pequenos jogadores perante aqueles que verdadeiramente ditam as regras do jogo.
Elliot Alderson (Rami Malek), um desses pequenos jogadores, se dá conta de tal realidade e decide trabalhar para reverter seu plano de destruir a E-Corp (empresa que ele julgava ser responsável pelos grandes males da sociedade) ao perceber que suas ações não estão mais sob seu controle – ou que jamais estiveram. O hacker, tanto em uma busca por paz de espírito quanto por redenção, baseia-se na ideia de anulação dos próprios feitos para atingir diretamente seus controladores.
As discussões e intrigas políticas da temporada, entretanto, não são como aquelas do ano anterior, diversas vezes confusas e sempre interferindo no ritmo da série. Aqui, as tentativas de Elliot para escapar de um domínio criado com sua própria ajuda mantêm constante diálogo com o trabalho arquitetônico de supervisão social realizado por aqueles cujos passos, ainda que pareçam em falso, são friamente planejados, devolvendo a Mr. Robot a eterna sensação de perigo sentida nos episódios de estreia, ainda em 2015.
Desenvolvendo compassadamente uma tensão que parece flutuante, a temporada oferece poucos momentos de respiro, e mesmo estes surgem como oportunidades de explorar nuances emocionais distantes de qualquer leveza. Em um desses casos, por exemplo, um dúbio “Eu também” de Elliot em resposta a um “Eu queria que você morresse” de determinado personagem nos faz questionar se o protagonista enxerga na autoculpabilidade um modo de vida ou se a morte do mundo exterior seria a solução para seus problemas.
Sabotar a si mesmo, inclusive, continua sendo algo recorrente para o hacker, ainda afundado em suas incompatibilidades sociais e dilemas mentais, evidenciados pela figura de seu alter ego, Mr. Robot (Christian Slater), este obstinado a ser um ventríloquo interno diante da recusa do protagonista em continuar o plano de derrubada da empresa vilã. Se antes Elliot mantinha qualquer controle sobre suas duas personalidades, aqui Mr. Robot parece cada vez mais independente, sendo quase impossível visualizar Malek nas cenas em que Slater domina a tela.
Os recursos visuais do seriado, fortes e autorais desde o primeiro ano, continuam se destacando, sobretudo pelo cuidadoso trabalho de fotografia. A imagem que põe Tyrell Wellick (Martin Wallström), em um flashback, diante do imenso prédio da E-Corp, ao mesmo tempo em que o personagem engasga em uma incapacidade de aceitar sua inferioridade hierárquica na empresa, é apenas um exemplo. Outro é a sequência em que Mr. Robot permanece, como um sidekick, colado a Elliot, quando este decide tomar as rédeas por determinada situação.
A direção de Sam Esmail (o criador dirigiu todos os episódio da segunda e dessa temporada) está aqui mais pontual e precisa, com notável capacidade de nos envolver em uma tensão que sequer entendemos totalmente, mas sabemos ser grave. O ápice desse trabalho está no quinto episódio, eps3.4_runtime-error.r00: são 43 minutos de um plano sequência irrefreável, um feito que deve ser reconhecido na próxima temporada de premiações não apenas pela dificuldade técnica, mas também pela imersão emocional.
Crítica: Mr. Robot (3ª temporada, 2017)
Pertinente e atual
Com um ano de estreia impecável e uma segunda temporada de bons momentos, mas problemática, Mr. Robot retorna para se consagrar como uma das maiores e melhores séries da atualidade. A pertinência da obra para o momento político e social que vivemos é óbvia (há até um momento em que a pateticidade de Trump é abordada), sem que a beleza e o esmero sejam postos de lado: são a forma e o conteúdo em perfeita harmonia.


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