Que Woody Allen gosta de falar sobre si em suas obras, todo mundo sabe. O aspecto cinematográfico criado pelo cineasta já é muito bem definido a ponto de bater o olho em tela e dizer: “Este filme é do Woody Allen.”. Refém de sua própria criação, Allen se perde na sua mesmice e seu novo trabalho Roda Gigante não traz muito do que já não tenha sido visto em sua própria filmografia.
Relacionamentos, traições, um protagonista amante da arte, um lugar central: esses elementos fazem parte de outros filmes assinados pelo diretor (vide Meia-Noite em Paris; Manhattan; Para Roma, Com Amor; e tantos outros). Sua identidade cinematográfica se encaixa em um padrão que se repete em suas estruturas narrativas criadas, e com uma filmografia tão extensa, acaba por saturar com histórias que já foram contadas pelo próprio Woody.
Em Roda Gigante, a arte em questão é o teatro, no qual se costura uma relação íntima, não só em história, mas em narrativa, que se faz presente em todo o filme. A protagonista Ginny (Kate Winslet) é ex-atriz frustrada, que se vê assumindo diferentes papéis (mãe, esposa, amante, garçonete) em suas relações para encobrir a sua infelicidade. Para além dos palcos, a personagem faz da sua própria vida um teatro – o que justifica o melodrama em determinados momentos. E, claro, isso não seria evidentemente bom se não fosse pela atuação de Winslet que, com seus monólogos, transforma a tragédia da garçonete em algo cômico e agradável de ser visto em tela. A melhor coisa do filme, que fique claro.
Outra evidência da relação com o teatro está no salva-vidas Mickey (Justin Timberlake), que interpreta uma outra versão de Allen. O personagem faz mestrado em teatro e conhece inúmeras peças clássicas. A profissão de salva-vidas é intencional, e, através de desnecessárias e “convenientes” quebras da 4ª parede, narra o que está por vir a aparecer em tela. Não que a atuação de Timberlake esteja ruim, mas o personagem apenas não tem carisma.
O uso da referência teatral, porém, não se faz presente apenas de forma diegética na trama. Como, por exemplo, em uma das sequências finais, a direção de Woody transforma o ambiente em um palco, com direito a iluminações que lembram a de um teatro, deixando os atores explorando o espaço, em uma cena sem cortes e de câmera com movimentos singelos.
A analogia à roda gigante se torna interessante ao pensar na ambientação do parque de diversões de Coney Island. A própria estrutura do brinquedo equiparado às relações construídas – altos e baixos; um movimento com um de cada vez – agrega uma fundamentação do que é visto em cena. Ainda relacionando à roda gigante – não à toa título do filme – a fotografia do veterano Vittorio Storaro, explicita o movimento do brinquedo ao “brincar” com as cores vibrantes e muito saturadas de um verão em um parque de diversões, escolhendo bem os momentos certos de utilizar esse recurso que salta aos olhos.
Allen tem algo marcante em sua identidade: o seu narcisismo espelhado nos seus trabalhos, nos quais ele escreve sobre ele mesmo: seus personagens agem como ele agiria; falam como ele fala; amam o que ele ama. A diferença, porém, é que sua autoafirmação de personalidade não está restrita apenas aos personagens e, sim, à trama. Roda Gigante faz menção sutis, em resposta (ou deboche) à todas acusações e escândalos envolvidos por ele (pesquise “Woody Allen scandals” no Google). As sugestões da personagem de Winslet sobre o pai possuir sentimentos “a mais” pela filha não estariam lá sem um propósito, quando consideramos todo o contexto da obra.
Por fim, Roda Gigante não é uma obra a ser recordada. Ao invés de ser visto como algo original, a sensação que o filme traz é de lembrança e comparação a outros filmes do cineasta. Afinal, vimos muito sobre ele nos cinemas e chega um momento que fica difícil diferenciar um dos outros. Falta originalidade e paixão. Talvez Woody precise repensar sua carreira com carinho e, quem sabe, começar considerar dar entrada em sua aposentadoria.

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