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Marvel’s Runaways (1° Temporada) | Quando fugir se torna a única opção

Marvel’s Runaways ou Os Fugitivos é uma série do serviço de streaming americano Hulu, baseado nos quadrinhos homônimos da Marvel Comics de Brian K. Vaughan e Adrian Alphona, que acompanha seis adolescentes: Alex Wilder (Rhenzy Feliz), Nico Minoru (Lyrica Okano), Chase Stein (Gregg Sulkin), Karolina Dean (Virgina Gardner), Gert Yorkes (Ariela Barer) e Molly Hernandez (Allegra Costa). 

Crítica: Marvel’s Runaways (1ª Temporada)

Quando fugir se torna a única opção


Os jovens descobrem que seus pais integram uma espécie de seita/supergrupo do mal chamado PRIDE(Orgulho), responsável por controlar grande parte do dinheiro da cidade e por serem as pessoas poderosas da região, e assim, unem-se a fim de desmascarar os atos cruéis das próprias famílias. Enquanto se situam no caos de verem os pais potencialmente como seus piores inimigos, eles ainda descobrem ter habilidades especiais e precisam conciliar tudo isso com as questões hormonais comuns à adolescência. 

O canal Hulu apostou em Josh Schwartz e Stephanie Savage, dupla responsável por séries como The OC e Gossip Girl para botar esse projeto em frente. Essa união de série teen com o universo geek foi fundamental para construção e atmosfera original dos próprios quadrinhos, que mesclam bastante as questões conturbadas e “clichês” da adolescência, mais a descoberta arrebatadora das atividades dos pais e dos próprios poderes. 

Apesar de que a série utiliza uma ferramenta narrativa e um roteiro um tanto diferente dos quadrinhos, enquanto nas HQs a apresentação dos poderes e ferramentas dos personagens, como a situação de embate entre pais e filhos, é o grande foco desde o primeiro momento. A série aposta ao inserir a prévia morte de um ente querido dos jovens, fazendo disso a ligação e aproximação dos seis personagens. Tendo assim, um grupo de amigos mais unidos emocionalmente, enquanto nos quadrinhos temos um grupo de “conhecidos” que se unem inicialmente por conveniência. 

Com essa aposta em uma linha mais sentimental, roteiro com ramificações em drama adolescente, com direito a romance e desilusões amorosas, a série tem uma vibe teen, e qual é o mal disso? Essa sempre foi a proposta da série e nem por isso tira o charme da produção, nem para os fãs do HQs. Além disso, esses momentos são muito bem distribuídos com as investigações sobre os pais/vilões, as descobertas das habilidades e/ou excentricidades de cada um dos jovens, e também vemos o outro lado da história, a visão dos pais sobre suas ações.

Em quesitos técnicos, ressalta a qualidade com que a série conseguiu apresentar bem todas as informações básicas e primordiais nos primeiros episódios. Cada adolescente é diferente do outro e esse contraste destaca-se a todo momento, provando que apesar de distintos, são complementares um ao outro, o que fortalece o principal foco do início do show que é garantir a relação entre eles. 

E ao mesmo tempo que elabora bem a construção de seus seis personagens principais, equilibra bem o tempo de cena com seus pais, que são personagens interessantes e fundamentais na história, dando integridade e coerência para os dois lados. Desenvolvendo e dando detalhes a cada episódio sobre a história do PRIDE através dos flashbacks relacionados ao círculo familiar de todos eles. 

Marvel’s Runaways ganha pontos pelo roteiro assertivo, a interação entre os jovens é marcada por momentos de insegurança, referências divertidas de cultura pop e comentários cheios de acidez e ironia, exatamente o que se espera de adolescentes comuns, trazendo naturalidade e, em outros momentos, até mesmo de descontração.

As atuações de maneira geral não comprometem, mas também não se destacam muito. Contudo, há de se ressaltar o esforço da equipe de produção para fazer com que os atores ficassem o mais fiéis fisicamente aos personagens das HQs. A maior exceção entre o elenco principal talvez seja a personagem da Molly, que teve no elenco uma atriz com idade e estatura um pouco acima da personagem no quadrinho. 

Com o elenco dos vilões, os pais dos Fugitivos, a produção visou algo mais realístico, tirando os uniformes e apostando nas posturas como forma de evidenciar os perfis característicos dos antagonistas. Outro ponto a se ressaltar é que o grupo de pais/vilões da série, o PRIDE, conta apenas com 9 personagens, e não 12 como acontece na revista. Isso em nome da narrativa ganhar profundidade e ganchos a serem utilizados no futuro. 

Em relação à heterogeneidade da origem dos heróis: são feiticeiros, mutantes, cientistas, alienígenas reunidos. Na série, contudo, algumas dessas categorias foram sublimadas, Molly ganha os poderes em um acidente misterioso; a Marvel não possuía os direitos dos mutantes, o que impossibilitava que a origem de Molly fosse a mesma. O Cajado do Absoluto que Nico utiliza, perde grande parte do seu impacto por ser convertido em uma espécie de artefato tecnológico. 

Por sua vez, Karolina é uma alienígena manipuladora de energias, Gert tem uma ligação especial e controla um dinossauro, Chase um gênio da engenharia e robótica, criando uma luva superpoderosa, e Alex, o hacker e a mente estratégica tática do grupo. Alguns deles têm outras habilidades ou são um pouco diferentes nas HQ’s, mas nada que mude a essência da história. 

Por fim, outro aspecto que causa certo incômodo é que, diferente do que acontece nos quadrinhos, há uma demora até que os personagens virem de fato Fugitivos. E apesar de o roteiro brincar com essas expectativas de forma interessante, o alongamento desse processo de transição acaba se tornando frustrante. Marvel’s Runaways tem bastante potencial, os dez episódios apresentados foram uma bela apresentação para história e pro que está por vir em sua segunda temporada que estreia em novembro deste ano.


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