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Piloto: Krypton (2018) | Há mais sobre a lenda

Confesso que, quando Krypton foi anunciada como um prelúdio para Superman passado duas gerações antes da destruição do planeta e do envio do bebê Kal-El para a Terra, fiquei um tanto preocupada e curiosa. A série começa com uma premissa interessante, mesmo que em determinados momentos ela termine se perdendo dentro de sua própria proposta e tendo alguns furos, levando em consideração a história dos quadrinhos. 

Piloto: Krypton (2018)

Há mais sobre a lenda


Krypton segue a vida do avô de Superman, Seg-El (Cameron Cuffe), enquanto ele tenta resgatar sua Casa das margens de uma nova e sombria Krypton. Com o nome El praticamente morto, Seg-El luta para recuperar a honra de sua família e, no meio dessa sua luta, encontra um misterioso homem, o viajante no tempo Adam Strange (Shaun Sipos), que o alerta a respeito de uma ameaça ao futuro do maior herói do universo, o Superman, seu neto. 


A série se inicia com a declínio da família El. Val-El, tataravô do Superman é condenado à morte por burlar as leis do planeta e deixa seus entes nas castas mais baixas da sociedade. Nenhum El é respeitado a partir dali. Anos se passam e Seg-El, neto de Val que o viu morrer, virou um rapaz encrenqueiro e que vive na periferia de Krypton com seus pais. Depois de um ato heroico, é condecorado a casar ou, como é chamado lá, “Vincular” com Nyssa-Vex (Wallis Day). Para isso, através de um conselho genético teria que estabelecer seu sobrenome, o trocando para Vex. 

Entre inúmeros acontecimentos no decorrer do episódio, Seg-El conhece Adam Strange, que anuncia que ele será o avô do Superman, o grande herói de seu planeta, e o entrega uma chave de uma “fortaleza” que logo se revela, claro, como a Fortaleza da Solidão de Val-El. Acaba sendo inserido o conceito de viagem no tempo na narrativa, eficientemente ao criar a costura que a série precisava com o presente para aqueles que necessitavam desse vínculo direto com o Superman - que não era o meu caso. 

Além disso, descobrimos que Seg-El namora as escondidas com Lyta-Zod (Georgina Campbell), cadete da força militar, provavelmente futura mãe do General Zod (aquele que pede para os habitantes da Terra e Superman se ajoelharem) e filha de Jayna-Zod (Ann Ogbomo), implacável líder militar. 


O personagem chave da série, Seg-El, é interpretado por Cameron Cuffe, um ator novo e com pouca experiência e talvez esse seja o ponto mais fraco do piloto. Falta em vários momentos do episódio aquela emoção e destreza nas cenas. Para intercalar melhor entre um adolescente rebelde que luta por uma causa, defende seus ideais e um adulto que perdeu sua família tragicamente, falta um tanto de naturalidade que espero que possa melhorar no decorrer da temporada. 

Diferentemente de Georgina, que interpreta Lyta-Zod, que mesmo não tendo aparecido tantas vezes, e sendo aquela personagem "típica mocinha", traz a naturalidade que falta em Cameron. E, por sua vez, Wallis Day que interpreta Nyssa-Vex parece bem robótica em sua atuação. Talvez essa seja a intenção, por ser sempre o que o pai espera e fazer tudo que ele quer, dê há impressão e característica a personagem. 

O problema de Krypton começa exatamente quando a trama começa a pegar emprestado elementos, por exemplo, do filme "Exterminador do Futuro", com Adam Strange surgindo com a capa do Superman para oferecer uma missão para Seg-El. Até então estava objetiva a proposta da série, de colocar Seg para tentar reconquistar o nome e honra da família, provando que seu avô estava certo e estabelecendo a mesma gana de seus filhos, aquela que forçaria ambos os herdeiros da casa El a colocarem seus únicos filhos em naves e enviá-los para a Terra. Infelizmente a mudança na premissa da série, tida como o grande fator de interesse pelos executivos do canal SyFy, é também o maior erro cometido por Krypton. Com certeza deixando futuros inúmeros furos na história para os amantes dos quadrinhos. 


Ao final do episódio ficou aquela sensação de que Seg tem que salvar Krypyon para criar o Superman. Mas há um paradoxo de longo prazo aqui. Para criar o Superman, Krypton tem que explodir. Sendo que isso poderia ser um arco lá para quinta, sexta temporada, mais para frente, algo sombrio, talvez, como de repente Seg velho tem que destruir Kryton para salvar o futuro. Ou talvez ele implantasse memórias falsas no bebê Kal-El e atirasse o garoto para Kansas. 

Considerando o peso da mitologia de Superman, muitas referências, easter eggs foram utilizados nesse piloto em questão, o lado fan service acabou tomando conta e muita coisa estava presente - para aqueles que conhecem um pouco sobre, nada passou desapercebido. Logo de cara nos primeiros minutos de episódio, vimos o símbolo da família El, que na série é idêntico a nova versão apresentada no filme "O Homem de Aço". O Mundo de Krypton de John Byrne sendo fundido com diversas versões do planeta que conhecemos ao longo dos anos, especialmente a do filme seminal de 1978, que reparamos bem através da capa original e nas notas da trilha sonora de John Williams

Também de "O Homem de Aço" temos desde as referências dos nomes dos personagens, Seg-El que parece ser uma variação de Seyg-El, efetivamente o avô de Kal-El nos quadrinhos pós-Crise, o “desaparecimento” de Adam Strange, Brainiac surgindo como Borg (durante o episódio ouvimos o nome ‘Black-Zero’, que é o nome de um vilão que acreditava ter sido responsável pela destruição do planeta Krypton), além de uma gangue intergaláctica.

O conteúdo da Fortaleza da Solidão, com as icônicas estátuas segurando um globo e um breve momento em que vemos até o que pode ser a Clemência Negra, da história em quadrinhos "Para o Homem que Tem Tudo" originalmente publicada em 1985. As estátuas também aparecem na série Supergirl e, falando nela, em um breve momento temos a menção a Cidade de Argo, que é a cidade natal da personagem. Outra curiosidade é quando Adam Strange está caído no chão da fortaleza, e é possível ver um maço de cigarros da marca Luthorellos, uma óbvia referência a Lex Luthor. O boné usado por Adam é do time Detroit Tigers, uma referência ao próprio Geoff Johns, um dos roteiristas da DC que já apareceu usando um boné com o mesmo símbolo.


Krypton é um prequel da origem do ‘Superman‘, uma criação de David Goyer ("O Homem de Aço") pela emissora Syfy com parceria da DC Comics, e contará com 13 episódios em sua primeira temporada. Ian Goldberg escreveu o episódio piloto e também assina a produção executiva ao lado de David Goyer. Krypton, apesar de estar recebendo muita crítica negativa, ao longo da temporada pode, mesmo assim, acabar surpreendendo.


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