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Thanos e a complexidade de sua Guerra Infinita

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Obs: esse texto contém spoilers de "Vingadores: Guerra Infinita"

Há tempos que esperamos do Universo Cinematográfico Marvel um vilão a altura de seus heróis, e um roteiro que finalmente fuja de uma fórmula saturada que não funciona faz algum tempo. Criou-se uma aura poderosa no senso comum sobre o que poderíamos esperar, ou não, dos filmes de herói da Marvel. Estes foram taxados por muitos de infantis, seja pela paleta de cores na fotografia, pelas piadas constantes, ou pela simplicidade dos antagonistas e os desfechos dos principais filmes. Pois bem, os irmãos Russo conseguiram: a fórmula mudou consideravelmente e, talvez, a sua opinião ao assistir Guerra Infinita comece a mudar daqui pra frente.

Thanos e a complexidade de sua Guerra Infinita

Estamos diante do maior antagonista já encontrado em um universo cinematográfico de super herói?


Para resolver essa problemática não tinha um segredo muito grande. Se não nos contentamos com a situação problema que os heróis enfrentavam, com a previsibilidade dos acontecimentos e com a relevância do antagonista, não tinha outro jeito: precisamos de um vilão que não seja um mero coadjuvante. Este deve ter uma profundidade semelhante aos mocinhos, uma história, uma causa e que tudo isso se reflita em sua personalidade e na tomada de decisões. Se boa parte dos heróis da Marvel sofreu com um antagonista supérfluo, que hora seria melhor de inserir este personagem tão esperado se não em um crossover onde participassem todos os heróis? 

Nenhuma. Essa é a melhor hora mesmo.

E, então, temos a chegada de Thanos, um vilão de uma complexidade e esmero que o torna, talvez, o maior antagonista já encontrado em um universo cinematográfico de super herói. Nessa afirmação audaciosa não se pontua por questões de poder, ou habilidades do personagem, mas sim pelo seu nível de profundidade e o cuidado em que ele foi construído. Josh Brolin encarna o alienígena com uma imponência e classe dignas de um verdadeiro lorde. Não precisamos saber quantos anos ele tem, quantos planetas ele já visitou e conquistou, ou os eventos fantásticos que ele já presenciou como encontramos nas falas de outras grandes entidades como o Doutor Manhattan, em Watchmen. A presença do titã, sua forma de se comportar e como ele toma decisões já é o suficiente para nós.

Logo no início do filme nos deparamos com os dois heróis mais poderosos dos vingadores sendo humilhados em segundos. Não conseguimos ter uma noção da força do titã, nós o contemplamos em um estado emocional harmônico e, ainda assim, assistimos os nossos heróis serem derrotados com uma simplicidade alarmante. Se não foi possível derrotá-lo através dos punhos, houve outras tentativas: Loki, o Deus da trapaça, cheio de inteligência e sagacidade, falhou miseravelmente ao tentar enganar Thanos. Parecia um bando de jovens imaturos contra um sábio imperador de poder inimaginável.

As últimas palavras de Loki não tiveram peso algum: “Você nunca será um Deus.” Ele disse.

O que isso de fato se refletia ao público? Ora, veja o que ele está fazendo com vocês, Deuses. Porque ele regressaria a esse nível? Ele é algo bem maior. E não demorou muito para percebermos que o Thanos é um personagem extremamente didático para explicar que, no cinema, a cor roxa presente de forma considerável em uma cena significa uma possível presença de mortes. E assim foi por todo o filme, por mais que ocorresse uma cena positiva para o time dos vingadores fazendo o público vibrar, ela era devastada por um silêncio a cada momento que o titã aparecia. Assim como em Game of Thrones, aqui, acreditamos na ameaça de morte de qualquer personagem a cada instante que o vilão se aproximava. 

Todavia, o nosso titã não é apenas o personagem mais poderoso do filme do começo ao fim, mas também o mais inteligente e sábio. Sua forma de se comportar, extrema paciência com acontecimentos e pessoas mostra bastante isso. Podemos sentir seu cansaço em cada detalhe, forma de falar, ou expressões faciais. Thanos parece já ter feito aquelas brutalidades milhões de vezes. Ele parece estar exausto de escutar aqueles mesmos argumentos, de pessoas diferentes, há milênios. Há uma classe na sua forma de consolar os inimigos derrotados e mostrar, de certa forma, misericórdia. Ele chega a se justificar, explicando sua ideologia, suas razões, o motivo pelo qual ele está fazendo tudo aquilo. Muito além disso, ele chega a esperar que alguns dos heróis, como Tony Stark, que também foi “amaldiçoado com conhecimento”, entenda a sua causa.

E observe: quando ele fala “amaldiçoado com conhecimento”, no planeta Titã, há um vestígio de que, talvez, Thanos se lamenta de saber tudo aquilo, pois ele, infelizmente, por saber e entender, é o encarregado de buscar o equilíbrio do universo. Não é algo que ele vê com um enorme orgulho, mas como um peso que somente ele pode carregar, pois ele é o único que compreende e é forte o suficiente para tal dever.

Dessa forma Thanos caminha ao longo do filme, em todos os momentos, em busca das jóias do infinito e apenas isso. Os flashbacks deixam claro a importância das jóias e a devoção a sua causa. Uma determinação incansável que vai além de tudo que ele ama. Nada supera sua ideologia. Se analisarmos bem, a justificativa do titã é algo que deixam os espectadores um pouco divididos, não por torcerem por ele, mas há uma lógica racional e que faz certo sentido. Tudo isso torna o vilão cada vez mais brilhante, porque gera respeito, faz parte do carisma. Não é um discurso colonialista de dominação de mundos, ou de extinção de uma raça e blablabla [...] como escutamos muitas vezes. É algo que, minimamente, nos faz pensar:

“Não sei se ele está fazendo isso da melhor maneira possível, mas ele pode não está errado...”

E de onde vem essa ideologia que Thanos acredita com tanta convicção? Bem, talvez ele seja um neomalthusiano-intergaláctico. Veja, Thomas Robert Malthus foi um economista britânico que desenvolveu uma teoria no final do século XVIII que defendia que a população mundial cresceu demograficamente em progressão geométrica, enquanto os recursos de alimento cresciam em progressão aritmética. Caso você não se lembre, ou nunca tenha ouvido falar disso, podemos resumir que a população mundial cresce muito mais rápido que os recursos naturais que resultam na alimentação dessa população. Malthus era um aristocrata burguês, culpava as camadas pobres da sociedade por esse aumento populacional e, consequentemente, isso levaria à ruína de todos nós.  
Percebe uma ideia levemente semelhante ao do nosso neomalthusiano-intergaláctico? 

Vejamos o ponto de vista do nosso vilão:

Thanos defende que os recursos dos planetas são limitados, assim como a sua população. Ele acredita que, se não houver um controle populacional, o crescimento desenfreado demográfico vai levar a destruição daquele planeta. Se isso repetir em muitos outros, seria um problema em várias galáxias e, até, no universo. Isso ocorreu em seu planeta natal, chamado Titã, quando ninguém lhe deu ouvidos. Então, o nosso antagonista teve uma ideia: ele decidiu viajar pelas galáxias e, para controlar a população desses planetas e impedir que o mesmo fosse destruído pela enorme demanda de recursos naturais, ele mataria sempre metade da população. Ora, apesar do radicalismo, temos aqui alguém de uma corrente de pensamento levemente semelhante à Malthus, não? 
Mais ou menos.

Apesar de Thanos matar milhares e milhares de extraterrestres, o que tornaria a nossa teoria neomalthusiana-intergalática ainda mais pessimista e “desumana”, - ou “desalienígena” - O nosso vilão tem uma particularidade que o diferencia de Malthus: o titã aniquila metade das populações de forma aleatória, sem nenhum preconceito ou vantagens de classe. Thanos pode matar tanto o rei, como o plebeu, de forma completamente aleatória. Ora, ele fez exatamente isso, em Guerra Infinita, não? Seriam, respectivamente, o Rei de Wakanda (Pantera Negra) e o nosso Herói da Vizinhança, estudante de escola pública de bairros marginalizados de Nova York (Homem Aranha).

Então, há certa “justiça” no julgamento dessa nova [...] Vamos chamá-la de Teoria Thanosiana.

E tudo isso se reflete, inclusive, no título do filme, certo? O título “Vingadores: Guerra Infinita” fala de um filme que se passa no ponto de vista de um personagem que é o vilão dos vingadores (é o personagem com o maior tempo de tela). Em primeiro momento podemos pensar nesse título devido às jóias do infinito, as relíquias por quais Thanos está travando uma guerra para obtê-las. Bem, tudo indica que o título do filme é realmente por conta desse motivo, até porque, faz bastante sentido. 
Mas vamos viajar um pouco mais, certo?

Thanos transita por vários planetas aniquilando metade de sua população para buscar o equilíbrio do universo e garantir a vida, ok? Visitar tantos planetas não deve ser uma tarefa fácil, repetir as mesmas coisas várias e várias vezes, assistir e presenciar os mesmos discursos e protagonizar constantemente a dor alheia. Se o nosso titã não tivesse conhecimento das jóias do infinito, sua tarefa seria realmente uma guerra infinita. Ele sempre faria inimigos por conta dos massacres e nunca poderia descansar, porque, alguma hora, ele teria que voltar aos planetas que um dia já visitou. A caça pelas jóias do infinito seria a única forma de pôr um fim em sua guerra infinita: com um estalar de dedos ele resolveria sua jornada e poderia descansar em um local belo para assistir um belo pôr do sol em paz.

E vejamos: se alguns planetas não respeitassem novamente o aumento populacional? Snap! Em um estalar de dedos ele resolveria tudo de novo, teria, finalmente, sua sensação de dever cumprido que salvará o universo. O título do filme talvez fale bem mais sobre Thanos do que sobre os nossos heróis.

 Nesse contexto, o antagonista sequer culpa aqueles que tentam pará-lo, tratam todos com pena, como um bando de ignorantes que não entendem sua causa. Ora, quantas vezes isso já deve ter ocorrido? Assim, ele em vez de rebaixá-los, apenas os consola. Apesar dos atos de violência, Thanos tem elementos que por muitas vezes se assemelham as qualidades de mocinhos que assistimos em outros filmes: nosso titã sela acordos e honra sua palavra, sempre. Pega o que quer e vai embora, seu foco tira dele, muitas vezes, o sabor da vingança. 

Vamos visualizar outros momentos:

Ao conversar com sua filha adotiva, Gamora, ele ressalta muitas qualidades da filha que ele ensinou (e por isso ela era boa naquilo), porém, ele nunca a ensinou a mentir, ou enganar alguém. Isso porque, aparentemente, Thanos não tem essa prática, ele joga com as cartas na mesa, lutas justas. Por falar em “lutas justas”, podemos relembrar a que ocorreu em Titã, quando para segurar o vilão os vingadores recorreram a diversas estratégias que, se fosse o contrário, seriam “golpes baixos convencionais contra mocinhos”: obstruir a visão do inimigo (em muitos filmes joga-se areia, aqui, o Homem Aranha solta teia em seu olho), diferença numérica (eram seis contra um), tentar roubar a arma do inimigo (manopla do infinito) etc. Em todas as batalhas contra Thanos os heróis mancharam muito mais sua honra em combate do que o vilão. 

Não é que a honra importasse muito naquela hora, o importante é salvar o universo, mas… Temos que reconhecer: Thanos é, para um vilão, um personagem bastante honrado!

Temos aqui, então, o primeiro antagonista do Universo Cinematográfico Marvel que finaliza um filme conseguindo seus objetivos e vai além: ele não utiliza de trapaças para conquistar o que quer. Apesar de diversas práticas de tiranos, tais como: tortura, ameaças e chantagens, Thanos não esconde o jogo. O vilão tem a confiança de um conquistador, tudo que ele tem, ele foi atrás e tomou à força, mas sem estratégias nebulosas. Apesar dos pesares, ele acredita estar salvando o universo, que esse é o seu dever e não pouparia ninguém que estivesse contra sua jornada em busca do equilíbrio. Ora, ninguém e nada! Nem mesmo o amor que sentia pela filha adotiva, Gamora, que talvez fosse o maior amor de sua vida - talvez o único - até aquele momento. Como em qualquer guerra, há grandes perdas em todos os lados. Assim temos uma ideia de porque tanto respeito por esse tão saudoso vilão que veio salvar o UCM.

Vingadores, façam jus ao nome! Aguardamos ansiosos a revanche!

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