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Climax (2019) | O aterrorizante pesadelo de não conhecer as pessoas

Minha gente, Gaspar Noé é um puta louco do caralho.

Sim, eu entendo que haveria maneiras mais elegantes de descrevê-lo e de iniciar o texto, admito. Mas nenhum adjetivo resumiria com fundamento o que senti durante a projeção de seu último filme, cujo roteiro parece ter sido escrito para satisfazer as grandes obsessões do autor: violência, horror e erotismo.

Desde o seu filme Irreversível, polêmico por apresentar uma cena de estupro durante longos 15 minutos, o diretor tem se mostrado cada vez mais concentrado na ultra-violência, quase como se ele fosse o Alex de Laranja Mecânica. Obviamente, essa paixão pelo horror vem acompanhado do erótico, chegando quase no limite entre arte e o pornô, como aconteceu com o seu filme Love 3D, que tinha imagens perturbadoramente sexuais, sem contexto ou trama.

Em Climax, o diretor volta ao mesmo erotismo, sendo até um pouco mais grotesco que seus filmes anteriores, visto que ele sugere muito mais do que mostra. Na trama, também escrita por Noé, dançarinos reúnem-se em uma escoa isolada para ensaiar um espetáculo. Depois de um dia longo de ensaios, o grupo celebra bebendo sangria. Logo após essa longa introdução, o carisma e personalidade de cada um muda, o que nos faz crer que algo de errado tinha naquela bebida. E a partir daí, o lugar deixa de ser seguro e se torna um verdadeiro manicômio, sendo muito mais infernal que qualquer filme do metido Lars Von Trier. Ah, e ao escrever essa crítica, descobri que o filme foi filmado ao longo de 15 dias e teve apenas cinco páginas de roteiro, algo que mostra que ele é, acima de tudo, uma experiência do próprio diretor.

Obviamente que essas cinco páginas são concentradas na crueldade. É inegável que a primeira parte do filme é simplesmente brilhante. A experiência de conferir aqueles personagens dançando é imersiva de uma forma que há muito não conferia na sala de cinema. Sim, La La Land tem uma abertura sensacional, mas a dança de Climax é muito mais próxima do estilo de Mad Max: Estrada da Fúria, visto que os primeiros 20 minutos são absolutamente espetaculares, garantindo ao público um respiro somente depois da introdução.

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É impossível não entrar no ritmo e não surtar com tamanha beleza. É uma viagem onírica que o diretor garante que todos sintam. O álcool, indiretamente, entra no nosso sangue também. Mas contrariando essa viagem harmoniosa, o segundo ato do filme se resume como uma daquelas obras difíceis de assistir. A viagem se torna um horror e todos eles mudam de comportamento inesperadamente, como aqueles dois amigos que começam a falar de forma apaixonada sobre uma mulher até que, cinco minutos depois, começam a discutir formas de se estuprar uma garota. Não é fácil de aceitar, mas garante aos personagens um desenvolvimento, logo que eles passam a mostrar quem verdadeiramente são.

Nesse sentido, a música entra como um apoio da “lombra”. A trilha sonora foi pensada de um modo que nos coloque naquela experiência cruel onde todos se encontram. E a partir disso, é fácil fechar os olhos para o que está chegando e, devo confessar que, assistir uma mulher gravida levando chutes no estômago me garantiu mais temor por eles do que qualquer filme de terror da última década.

Climax é uma experiência aterrorizante. É um filme disposto a garantir loucura, seja na montagem, no movimento de câmera, nos diálogos ou nas atuações brilhantes. É um filme cru que mostra que todo ser humano, e quando digo “todo”, isso inclui você também, pode ser mostrar um monstro.

Curioso ter visto esse filme, inclusive, em uma semana que descobri atrocidades cometidas por amigos próximos. A decepção foi compensada com o filme, que me alertou que, sim, a loucura já está no caráter da pessoa e não nas drogas que ela consome. 

É isso. Climax é uma obra difícil de não se envolver, seja nos momentos de desespero ou deslumbramento.

Crítica: Climax (2019)

O aterrorizante pesadelo de não conhecer as pessoas

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