Karim Aïnouz retorna ao cinema ficcional depois de um longo período
em reflexão documentarista. Após se dedicar aos documentários nos últimos anos, o cearense
apresenta em A Vida Invisível, produção elogiada no último Festival de Cannes,
onde venceu o prêmio principal da mostra Um Certo Olhar, uma história sobre
separação e saudades.
A Vida Invisível: A beleza machuca
CRÍTICA
Baseado no livro de Martha Batalha, o longa conta a história de duas irmãs, Eurídice (Carol Duarte) e Guida (Júlia Stockler), separadas pelas convenções patriarcais em um Rio de Janeiro de 1950, sendo ainda pior que o de 2019. Criadas em uma tradicional família de descendentes de portugueses, as irmãs partilham de um amor extremamente forte e que, logo em 10 minutos de filme, é exposto através de muito humor e carinho. Apesar do ambiente hostil de uma floresta que separa as duas, sabemos que tudo está em paz.
Depois disso, quando Guida foge da cidade com
um marinheiro grego, apenas para retornar grávida e solteira, ela se vê renegada
pelos pais preconceituosos (e conservadores). Para piorar, ela é impedida de
qualquer contato com Eurídice ao ouvir de seu pai que a irmã não estava mais
morando no Brasil. Para o drama engatar de vez, as duas irmãs ficam separadas,
apesar de dividirem o mesmo estado.
Mesmo lento e com uma pegada melodramática até
demais para os desavisados, Karim consegue que o filme seja, no mínimo,
belíssimo em suas imagens, só pra começar. Com o mérito da diretora de fotografia Hélène
Louvart, A Vida Invisível é uma viagem completamente nova ao Rio de Janeiro.
Diferente das praias coloridas e dos personagens sorridentes, a diretora
explora um estado frio, sem vida, beirando o monocromático de Tim Burton ou as belezas
angustiantes de James Gray.
Nesse ponto, inclusive, o filme, em roteiro e
em estética, se aproxima de Era uma vez em Nova York, quando Marion Cotillard,
ameaçada constamente por Joaquin Phoenix, se rendia aos abusos sexuais e
psicológicos como moeda de troca para encontrar a sua irmã perdida. Assim como
no filme de Gray, onde ele torna NY um lugar sujo, Karim enfatiza um Brasil sem
cores, onde todas pessoas, em seu conforto de rotina, se tornam saberetas aos olhos do diretor. Na verdade, quando existiu policromia aqui?
Karim explora essa frieza com Eurídice, por exemplo. A mais velha das irmãs é forte, independente, segue todas as suas intuições e, mesmo assim, acaba pagando o preço de suas escolhas. A mulher tem a sua felicidade negada até mesmo em seu sonho de ser pianista, que ela busca desde a infância, é constantemente adiado pela estrutura patriarcal ao seu redor. Na personificação de Gregório Duvivier, a pressão psicológica acumulada não permite que a mesma se livre de uma vida meditabunda.
Com tanta erudição, o diretor ainda sabe o
ponto alto de seu filme. Se estamos fartos de sofrer por uma realidade que está
diante dos nossos olhos, tudo fica ainda mais patente na participação de
Fernanda Montenegro, que, com poucas palavras, emociona ao pontuar que, mesmo com muita dor no peito, as mulheres só precisam aceitar o destino e não lutar contra ele. Equilibrando arrependimento e horror, Montenegro não mostra agressividade. Ela só assente. Com 89 anos, ela encontra aqui mais uma
personagem forte e que, mesmo sendo silenciada durante toda sua vida, não se
deixa abater com o que descobre. Sofre, mas engole.
E aí nesse ponto do filme já estamos fodidos
de tanta dor. Mas o que é saudades se não isso?
Filme assistido no 29º Cine Ceará - Festival Ibero-americano de Cinema. Confira a cobertura completa.


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