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Eu Não Sou o Seu Negro (2017) | Não, não está tudo bem

 I Am Not Your Negro (EUA) “A história dos negros nos EUA é a história dos EUA” . A frase dita próximo ao fim de ‘Eu Não Sou o Seu Negro’ consegue resumir todos os motivos óbvios pelos quais suas mensagens são tão poderosas e pertinentes à cultura estadunidense e, consequentemente, ao cinema documental contemporâneo. A obra dirigida por Raoul Peck tem não somente o papel de discorrer sobre a imensa repressão que a conhecida história de seu tema envolve, mas também o desafio de trazer isso sob um pensamento íntimo.  Seguindo cordialmente um texto inacabado do pensador afro-americano James Baldwin , o filme se utiliza dessa base para justificar seu raciocínio. A modulagem de sua reflexão parece sempre justa e principalmente sincera ao texto original. É ainda mais intenso que seus encaixes pensem sobre aspectos e detalhes da própria cultura norte-americana, de modo afrontoso à “normalidade” comercializada. Nesse sentido, consegue transmitir ideias além do extenso monó...

Tinha Que Ser Ele? (2017) | Pelo menos tinha que ser James Franco

Why Him? (EUA) Os rumos da comédia hollywoodiana estão defasados há muito tempo. Geralmente se definem como uma união de blocos de humor que se apoiam em moldes dramáticos recorrentes ao gênero. E o que ainda nutre constantemente são pequenas ideias que funcionam como justificativa. 'Tinha Que Ser Ele?' , além de trazer a junção atraente de Bryan Cranston e James Franco , possui uma compreensão geral sobre algumas características de seu humor. Mas não lhe resta muito além disso. Por mais que Ned (James Franco) seja um personagem de profundidade montada sobre imediatismo, fica evidente desde sua primeira aparição que ninguém mais além do próprio Franco poderia vive-lo. O ator faz parte do seleto grupo industrial de artistas “versáteis”. Trabalhando ininterruptamente, faz drama, humor, fantasia, etc. E, mesmo que a maioria de seus filmes não tragam conteúdos realmente novos, sua presença é sempre marcante. Seu personagem Ned é um magnata rico e “inconsequente”; o rote...

Silêncio (2017) | Fé colocada à prova

Um antigo desejo do renomado diretor  Martin Scorsese  finalmente ganha forma.  Silêncio  é a nova obra do diretor e, desde sua estreia nos EUA (em dezembro de 2016), tem dividido opiniões.  O filme, que é uma adaptação do livro “Chinmoku” (O Silêncio, 1966), do escritor católico japonês Shusaku Endo , retrata a história de dois missionários portugueses que vão até o Japão e presenciam a dizimação de japoneses convertidos ao cristianismo. A partir disso Scorsese consegue traduzir à tela um tema controverso com imparcialidade que se faz necessária. O roteiro de Jay Cocks faz questão de apresentar as religiões e seus impactos sob as duas perspectivas. De um lado, a postura ofensiva dos japoneses em detrimento de sua religião local – o budismo – e do outro, padres jesuítas entrando em outro país, convertendo e impondo a população às suas crenças ocidentais, uma prática comum no continente africano e na América (vide a nossa herança religiosa). O q...

Fome de Poder (2017) | Interesse convencional

The Founder (EUA) Ao fim do Oscar 2016, sugeri para uma matéria de expectativa do Oscar 2017 a presença de 'The Founder' (Fome de Poder, em tradução brasileira). O nome me surgiu por ser uma “cinebiografia” de um item pertinente à cultura estadunidense e, talvez principalmente, por trazer Michael Keaton como protagonista. Parte por esperança minha de que seu trabalho em ‘Birdman’ fosse realmente autobiográfico e que sua figura ressurgisse na crítica. Entretanto, ‘Fome de Poder’ foi um dos filmes mais esquecidos da temporada de premiações. Ao finalmente assisti-lo, entendi de cara que a principal razão desse esquecimento é sua convencionalidade. Diferente do que esperei, o roteiro de Robert D. Siegel não é sobre a origem do McDonald’s, mas sobre o processo burocrático que o tornou uma das franquias mais bem-sucedidas do ramo alimentício e posteriormente imobiliário. Para um leigo, assim como eu, esse fato é uma surpresa interessante. Apresentando-a em menos de ci...

Objetos Cortantes | No limite da insanidade

Gillian Flynn , como sempre, não decepciona. Muito pelo contrário. O universo criado pela autora (que já foi inclusa na lista de leitura do ex-presidente americano, Barack Obama) explora a mágoa e a mente, além do rancor de uma família desestruturada de forma extrema e sombria, percorrendo pelos lados mais obscuros do ser humano. Trabalhando em um jornal sem prestígio e recém-saída de um hospital psiquiátrico, Camilla Preaker só tem uma certeza: nada nesse mundo a faria voltar para sua cidade-natal, a pequena Wind Gap . Fugindo de um passado conturbado e problemas na família, a jornalista escapou de seu inferno pessoal oito anos antes, e o que mais deseja é esquecer esse lado de sua vida para sempre. Mas, quando crimes envolvendo meninas acontecem na velha Wind Gap e Camilla é a única com laços familiares na cidade, ela sabe que já não possui escolha (ainda mais porque seu editor-chefe não a dá nenhuma): ela precisa ir. De volta para a pequena cidade no interior de Missouri ...

Kong: A Ilha da Caveira (2017) | Kong retorna com a energia que faltava nos filmes de aventura

Kong: Skull Island (EUA) O Godzilla de 2014 foi fiel ao original de 1954. Ambas as tramas se concentraram no mistério e na criação de expectativa, o acabou transformando o monstro em uma sombra durante grande parte da obra. Desse modo, Kong: A Ilha da Caveira , assim como o King Kong de 1933, é uma intensa aventura suscetível que simplesmente não cansa de suas sequências de batalhas fantasiosas e empolgantes. + King Kong (1933) | Os mistérios do início do século O filme, logo em seu início, desenvolve uma trama “original”. Sem similaridades com aqueles baseados na pós-depressão de 1929, a obra se determina em oferecer nada mais que inúmeras cenas absurdas de ação. A história, já conhecida por muitos, é uma odisseia lúdica que viajou dos anos de 1980 até 2017, com uma inspiração forte em clássicos de Steven Spielberg . O diretor Jordan Vogt-Roberts , muito dedicado, por sinal, se exibe com uma vontade de se diferenciar dos anteriores. Logo na introdução, o roteiro...

King Kong (2005) | A transformação de um clássico

Peter Jackson , em sua refilmagem de 2005, apostou em um plano muito sincero e que diferencia esse Kong dos anteriores. O take em questão é aquele em que o macaco põe Ann Darrow dentro de um prédio através de uma janela, já que o mesmo quer proteger a moça dos tiros dos aviões que os perseguem. A alegoria já o diferencia do original que, mesmo com todos os méritos incomparáveis da época, tinha uns problemas de narrativa, e, é claro, de todos os outros que transformaram o personagem em um monstro que rendia mais risos do que medo, como o Filho do King Kong , King Kong Vs Godzilla e até mesmo a versão de 1976 com o Jeff Bridges . A cena no original, por exemplo, mostra o Kong sequestrando a protagonista de um prédio, quase como se estivesse usando-a como escudo. Uma sequência aterrorizante, por sinal. +  King Kong (1933) | Os mistérios do início do século O roteiro, inspirado em criar homenagens ao clássico, transforma toda a tragédia da criatura em poesia. Logo no primeir...